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O piano de capricórnio*

"Quando os dedos se afundam com muita força nas teclas do piano, isso indica que é hora de retroceder. É hora de repensar e fazer de um modo distinto". Pensava assim todos os dias Geandra, com seus dedos longos e talentosos. Um tanto tristes nos últimos dias. O estômago estava sempre pesado. Pequenas pedras engolidas diariamente. O alento de Geandra era inventar músicas novas no piano surrado. Mas com os dedos pesados de preocupação, ela não estava criando nada. Peixes mortos na superfície do aquário. Capricornianos são desse jeito, trazendo pontada de infelicidade na alma. Querendo que tudo saia corretamente nos planos mundanos. Geandra fazia aniversário na véspera do ano novo. Ela odiava simpatias minutos antes do primeiro de janeiro. Odiava a felicidade repentina de quem depois apresentaria cansaço e descrença na vida pelos próximos 365 dias, trabalhando em coisas que não acreditavam. Geandra acreditava em seu piano, e em suas criações. Gostava de ficar sozinha, de admira...

Lua nova

Estrada escura  Pois é lua nova Sobre os cascalhos Invento subterfúgios Versos descompassados Desbotados Que não se encaixam Quando a lua está zerada A cicatriz não dói Não há parto de ideia Há casco de cavalo Somente Batendo sobre o cascalho Todo compassado Sob o véu negro de um céu Apagado.

Mensagem na garrafa

Clarita acordou decidida a colocar uma mensagem em uma garrafa e lançá-la ao mar assim que pudesse ir à praia no final de semana. Sempre sonhara com isso desde a infância e os adiamentos estavam incomodando-a há um tempo. Por que adiar algo tão simples? A ideia era escrever uma frase legal e inspiradora, à mão mesmo, em um pedaço de papel, qualquer tipo de papel, enrolar no formato de um canudinho, enfiar no gargalo de uma garrafa pequena e atirar nas águas salgadas, sem dó sem piedade. O fato de um estranho, talvez lá do Havaí ou do Alasca, abrir a garrafa e ler algo vindo de tão distante a fascinava. Porque, quando criança, Clarita perdeu as contas de quantas vezes ficava na areia, durante uma tarde inteira, esperando uma garrafa sair das espumas e rolar aos seus pés salgados. O conteúdo da garrafa não importava. Seu encantamento consistia em ser a eleita, a sortuda, a escolhida entre milhares para tirar a rolha de um recipiente que poderia ter viajado desde o Japão. A garrafa estav...

Cidade cinza

Da janela, vejo A cidade cinza Nuvens cor de chumbo Quase tocam a frieza dos telhados De um lado As luzes piscantes da lona de um circo armado Do outro O morro cheio de mato verdejante e limpo Da janela, observo Que as nuvens escorrem Que os raios estalam A cidade cinza não me convida Mas não fecho a janela Observo a escuridão Dentro e fora Das nuvens Das almas Das horas.

Os rios trotam*

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade. Os rios trotam com patas d'água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, s...

Muito pouco

Olhando os sapatos Caminhando Penso no que se foi E pouco No que virá Assim como Os carneiros pisam nos trevos Enquanto pastam o verde Do norte Eu Piso nos escombros E em alguns trevos Enquanto pasto O meu rancor.

Adélia se prepara para mais um ano vindouro

Adélia se prepara para mais um ano vindouro. Na verdade, não há muita preparação. Na virada do ano, não usará roupas brancas, da sorte, ou roupas amarelas, do dinheiro. Provavelmente, estará em casa, com os chinelos velhos de sempre. Nada de uvas ou lentilhas. Nem pulará sete ondas, porque mora a quilômetros do mar. Adélia não é ligada a simpatias. Não é de crendices populares. A passagem do ano é uma folha de calendário que vira. Neste ano que termina, Adélia conclui que sua vida não saiu muito do lugar. Dos propósitos estabelecidos, ela não cumpriu nenhum. Continua fumando cigarros vendidos nas embalagens de cor azul brilhante. Não fez nenhum curso importante, porque diplomas na parede estão fora de moda e dentro das gavetas ocupam espaço. Não trabalhou em um restaurante chinês, lavando pratos. Aliás, ela nem entrou lá para ver se tinha emprego disponível. Não teve grana para jantar lá nenhuma vez as suas sopas com legumes boiando, seus brotos sem gosto e seus pequenos pedaços de ...