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Postagens

Xaxins

Quando criança, Lelinha acompanhava sua mãe em todos os lugares. Era um tempo em que samambaias estavam na moda, plantadas em vasos de xaxins, hoje em extinção. E, em toda floricultura, os xaxins eram amontoados em pilhas. Na cidade onde Lelinha vivia, só havia uma floricultura. Um espaço enorme, com chão de cimento cru e paredes mal caiadas. Muitas mudas de roseira dentro de saquinhos plásticos de leite. Vasinhos pretos com violetas roxas, frescas. Sacos de húmus. Pequenas ferramentas de jardim. E mais xaxins, alguns com formato de simpáticas casinhas, onde você podia plantar sementinhas, como as de alpiste, e brincar de ver crescer folhinhas e podar aos poucos.  No teto, vasos pendurados por correntes finas. Samambaias, com seus xaxins, enormes, com folhagens que quase tocavam o chão. Nas paredes, mais plantas, com ou sem flores, com ou sem folhagens exuberantes. Lelinha não sabia bem quais eram todas as flores, somente violeta, rosa e margarida. Orquídea era raridade cara, assi...

Muro

Entre a contemporaneidade  De buracos e absurdos Conversas tolas por cima do muro Fizeram-me lembrar de você  Com sua alma sempre certinha A fala mansinha que dizia que estrelas eram sagradas E eu sempre gostando das estrelas que caem Que se esfolam agudas e que se apagam No chão Tudo em você sempre tão mar aberto, tão encorajado Daqui do meu lado Do muro Tudo tão aguado, aquarelado, esboçado, com medo, muito medo Entre a contemporaneidade E esse gigante muro de berlim Nossas palavras pulavam o concreto  Em pingue pongue interminável  Paredes me fizeram lembrar de você De largar a costa mansa rumo ao mar azul lindo Só lembranças Conversas tolas por cima do muro Com o vizinho que sempre oferece ameixas corroídas Pelo tempo, pelo terrível, pelo vazio Pelos morcegos.

A quitanda com arco de bananas

Quando criança, Lelinha acompanhava sua mãe em todos os lugares. Naquela rua estreita, atrás do supermercado, havia uma quitanda minúscula, frequentada por sua mãe semanalmente. Do tamanho de uma garagem, tinha em volta da entrada várias pencas de banana penduradas, formando um arco amarelo ouro. Dentro, prateleiras de madeira já escurecidas, cheias de frutas exalando perfume forte. Ameixa, abacaxi e laranja. Sua mãe pegava uma bacia de plástico na pilha, rosa choque ou azul royal, e enchia de punhados de quiabo, vagem, batata e chuchu. Tudo depois seria pesado na balança de ponteiro, um tanto enferrujada ou talvez desregulada. O dono, já com suas rugas e dentes amarelados de nicotina, fazia contas mirabolantes depois da medida do ponteiro. Falava o total, o que seriam centenas de cruzeiros somados. Pagavam e saíam para mais compras semanais necessárias em outros lugares da cidade. Mas a quitanda era um lugar que Lelinha adorava. Para sua mãe, uma rotina como outra qualquer. Para a fi...

Limoeiro

Com a lua descendo aos poucos no céu, era difícil se concentrar em outra coisa. Estava dividida, bem ao meio, com um lado tão branco como as nuvens, sobre um fundo azul celeste. A lua podia ser vista durante o dia, intocável. Milhares de coisas ainda por fazer. O trabalho e as opiniões que devem ser formadas todos os dias para parecermos mais lúcidos. Olhar a lua não é pecado. Continuemos a observação. Até alguém bater na porta e entrar resmungando que a vida é um limoeiro bem criado. Quem pensa que a vida é azeda, como limão pequeno caído fora de época, deve pensar que a solução é cortar o limoeiro fora. Por que não? Peguei o machado meio enferrujado no quartinho dos fundos de casa. Passei um pano velho na lâmina para melhor apresentação e funcionamento. O pé de limão ainda estava pequeno, mirrado, com tronco fino atrofiado. Seria fácil destruí-lo com uma cortada certeira. Talvez a faca de cozinha servisse. Mas queria algo mais emblemático para cortar o azedo da vida. Senti o peso da ...

Meio Kafka, meio G.H.

Sonhei com uma barata aprisionada em uma caixa de vidro. Enorme, velha. A caixa ficava em cima de uma prateleira branca, na parede do último quarto do corredor da casa dos meus pais. Dentro da caixa também tinha um dente que havia sido meu. Estranho, transparente e com raízes enormes. A barata presa não se movia. E não sei o que comia. Dente? Curiosa, sacudi a caixa, e não sabia que ela tinha uma fresta. A barata saiu por ela e não correu como fazem as de sua espécie. Saiu pulando como uma pulga, um grilo. No momento, meu pai estava no quarto. Nem pensei em matá-la com meu sapato. Faria tudo de um jeito limpo e eficiente. Rapidamente peguei o inseticida de embalagem vermelha que estava no armário debaixo da pia do banheiro. Corri para o quarto e borrifei o veneno sobre sua carcaça marrom. Errei. Outra tentativa. Errei. O inseticida saia como água do spray. A cada erro, o carpete se encharcava, formando manchas enormes, escorrendo para todo lado. Na terceira borrifada, acertei. A barat...

Domingueiras

Debaixo do mormaço Da lâmpada amarela Todas as ideias Domingueiras desfalecem-se A semana massacra Os ideais em flor que por amor ou ódio Coragem ou despreparo Não vingam Decerto Debaixo do amarelo Das lâmpadas baratas Ou debaixo do amarelo De sóis se pondo Fotografáveis.

Seis ou sete mulheres

Balbúrdia Balbúrdia, Balbina! Menina de barbante brilhante de lata de goiabada no anel no dedo fingida de noiva noiva de barbante brilhante no olhar lábios borrados Balbina alva, linda boba, finda cortes no coração balbúrdia confusão beba, Balbina! Até o fim diamante brilhante anel de barbante que a chuva levou. Balbúrdia, Balbina! Alva, linda ioiô com barbante anel de menina. 1983 Jogou a bacia no chão Irritada No alumínio mais um arranhão Uma coleção acumulada em montanha-russa compassada Dentro de si cabem tantas E todas As que trabalham e recebem As que trabalham e não ganham nada As que batem a roupa na soleira do rio As que riem porque têm seus esmaltes intactos As que a esbarram e apontam caminhos Os caminhos que ela corta não a indicaram O sabão em barra acabou Ficou miudinho feito a tampa da gasosa Oferecida a ela em 13 de março de 1983 Caiu feito patinha Coitada da bacia Dentro dela cabem muitas e toda...