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Postagens

Um dia comum

Quase nunca vejo os dedos róseos da aurora Tarde do dia Cozinho o galo com chimichurri Desapareço horas offline Esqueço a panela em meio à casa enfumaçada Anoiteço com o livro jogado no chão Porque já estou com Morfeu Sem memória no sofá Ele me fala da aurora Ainda é cedo Só mais cinco minutos eternos Dentro no meu android made in china.

A cigana

Até as próximas badaladas do relógio, empesteado de restos de pombos, da catedral metropolitana, Mariano não sairá de detrás da pilastra da obra abandonada ao lado mercado do Rui. Jurara ter visto um fantasma às três horas da tarde, passando em frente à catedral. Era uma mulher, de ares ciganos, saia longa rosa e cabelos negros compridos. Não conseguiu ver seu rosto. Na verdade, no lugar do rosto havia uma névoa. Não viu seus olhos, nem seus dentes provavelmente dourados. Viu um borrão que se alastrava em sua face. Mais nada. Quando deram as três e meia no relógio, Mariano, que ainda não estava atrás da pilastra da obra abandonada, a viu outra vez, atravessando a rua, rumo à praça do chafariz grande. Depois dela, passaram dois caminhões, lotados de árvores velhas cortadas. Mariano ficou confuso e a perdeu de vista. O semblante embaçado era o mesmo de antes. De costas, viu a cabeleira até a cintura se mover com o vento morno do meio da tarde, mas quando conseguiu mirá-la de frente, era ...

A um bordado

Pelo fundo da agulha Um turquesa forte Passa rápido Deixando pedaços Em cada buraco alinhado Formas ajuntadas De cores variadas Antes de sair ainda Do fundo apertado Um nó se lança à trama Ajustando, finalizando Aquilo que se formou Desenhado Ponto após ponto Atenção após atenção.

Xaxins

Quando criança, Lelinha acompanhava sua mãe em todos os lugares. Era um tempo em que samambaias estavam na moda, plantadas em vasos de xaxins, hoje em extinção. E, em toda floricultura, os xaxins eram amontoados em pilhas. Na cidade onde Lelinha vivia, só havia uma floricultura. Um espaço enorme, com chão de cimento cru e paredes mal caiadas. Muitas mudas de roseira dentro de saquinhos plásticos de leite. Vasinhos pretos com violetas roxas, frescas. Sacos de húmus. Pequenas ferramentas de jardim. E mais xaxins, alguns com formato de simpáticas casinhas, onde você podia plantar sementinhas, como as de alpiste, e brincar de ver crescer folhinhas e podar aos poucos.  No teto, vasos pendurados por correntes finas. Samambaias, com seus xaxins, enormes, com folhagens que quase tocavam o chão. Nas paredes, mais plantas, com ou sem flores, com ou sem folhagens exuberantes. Lelinha não sabia bem quais eram todas as flores, somente violeta, rosa e margarida. Orquídea era raridade cara, assi...

Muro

Entre a contemporaneidade  De buracos e absurdos Conversas tolas por cima do muro Fizeram-me lembrar de você  Com sua alma sempre certinha A fala mansinha que dizia que estrelas eram sagradas E eu sempre gostando das estrelas que caem Que se esfolam agudas e que se apagam No chão Tudo em você sempre tão mar aberto, tão encorajado Daqui do meu lado Do muro Tudo tão aguado, aquarelado, esboçado, com medo, muito medo Entre a contemporaneidade E esse gigante muro de berlim Nossas palavras pulavam o concreto  Em pingue pongue interminável  Paredes me fizeram lembrar de você De largar a costa mansa rumo ao mar azul lindo Só lembranças Conversas tolas por cima do muro Com o vizinho que sempre oferece ameixas corroídas Pelo tempo, pelo terrível, pelo vazio Pelos morcegos.

A quitanda com arco de bananas

Quando criança, Lelinha acompanhava sua mãe em todos os lugares. Naquela rua estreita, atrás do supermercado, havia uma quitanda minúscula, frequentada por sua mãe semanalmente. Do tamanho de uma garagem, tinha em volta da entrada várias pencas de banana penduradas, formando um arco amarelo ouro. Dentro, prateleiras de madeira já escurecidas, cheias de frutas exalando perfume forte. Ameixa, abacaxi e laranja. Sua mãe pegava uma bacia de plástico na pilha, rosa choque ou azul royal, e enchia de punhados de quiabo, vagem, batata e chuchu. Tudo depois seria pesado na balança de ponteiro, um tanto enferrujada ou talvez desregulada. O dono, já com suas rugas e dentes amarelados de nicotina, fazia contas mirabolantes depois da medida do ponteiro. Falava o total, o que seriam centenas de cruzeiros somados. Pagavam e saíam para mais compras semanais necessárias em outros lugares da cidade. Mas a quitanda era um lugar que Lelinha adorava. Para sua mãe, uma rotina como outra qualquer. Para a fi...