Sabe aqueles dias em que você não se sente bem. Parece estranho, mas tenho ficado assim de um mês para cá - bate a cinza do cigarro através da janela entreaberta - não que eu não seja feliz, eu tenho tudo nessa vida, mais do que eu pedi, mas às vezes fico imaginando que a vida poderia ser de outra maneira. O senhor sabe que eu me apaixonei por outro antes do Amaro - fala baixinho como se pudesse ter alguém escutando atrás da porta - eu não me entreguei a ele, o Amaro foi o primeiro, mas a primeira paixão que a gente sente, o senhor sabe, fica marcada lá dentro do coração, lá no quentinho das lembranças mais doces que a gente pode ter. A vida, o senhor sabe, é um carrossel e não dá para a gente pedir para parar, para descer. Se a gente faz isso é taxada de burra, de precipitada. Quantas vezes eu tive vontade de dar uma parada na vida, viajar, sumir, mas larguei o emprego de professora a pedido do Amaro, era tão ciumento. Hoje que diferença faria se eu trabalhasse, já cheia de varizes e pés-de-galinha - joga a binga do cigarro pela janela e procura algo na bolsa sobre o sofá - os tempos estão difíceis, mudados, mas Amaro não enxerga. É uma toupeira. O senhor não, o senhor é um homem moderno, vindo da cidade grande, sabe das necessidades de uma mulher, com todo o respeito, não me leve a mal, mas haveria algum problema se eu fumasse mais um cigarro? Estou nervosa estes dias. Amaro não tem dormido bem à noite, está desconfiado - fica vesga ao mirar o fósforo na ponta do cigarro - imagina tantas coisas, já disse a ele que minhas varizes me matam, mas homem dos antigamentes nunca entende nada mesmo. Minha mãe bem que me avisou que casar com um homem 11 anos mais velho poderia me trazer problemas. Mas Amaro era tão charmoso quando usava chapéu em dia de festa na cidade. Tinha posses, o senhor sabe como é, minha família sempre com tantas dificuldades... Minha mãe bordava para fora - olhava a janela entreaberta com o olhar perdido na fumaça do cigarro - era outra que não sabia nada da vida. Tinha bom coração, mas foi tão mal compreendida quando deu vassouradas no meu pai ao descobrir que ele tinha caso com a Cicinha, lembra da Cicinha?, tão loira que doía a vista só de ver. Amaro foi minha salvação naquele inferno. Mesmo se eu tivesse me casado com meu primeiro amor, acho que também não teria sorte. O pobre uma vez me roubou um cigarro na bolsa, perdoei porque acho que na verdade eu é contei mal a quantidade que eu tinha antes da visita dele na minha casa. Mas não daria certo, o senhor sabe, gosto de homens maduros - faz beicinho e olha para a minha cara - admiro tanto o senhor, tão respeitoso, tão sabido, tão moderno - ajeita o vestido no corpo e faz cara que vai fazer uma pergunta difícil, aproxima-se mesmo sabendo que está cheia de varizes e pés-de-galinha, olha nos meus olhos e pergunta sem titubear - posso acender mais um cigarrinho?
Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...
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