Destempero, descarrego, desafeto, ato desumano, tanto acontece em tanto lugar. Não importa onde, sempre há de nascer uma rosa espinhenta no peito que arfa em espera por dias diferentes. Desejos e desdesejos se repetem em cada ponto luminoso de cidade grande, inchada de pormenores.
Avenida Décima, com temperatura morna
Não era difícil distingui-la em meio a multidão. Sempre enterrada em uma capa de chuva amarela. Sempre com medo de atropelamento e tromba d'água em fim de tarde. Engolida diariamente por prédios, fumaça, trânsito barulhento. Era diferente sim, mas quem pararia para olhá-la em meio a tantos compromissos na agenda? Era prioridade desviar de quem não usasse a mesma roupa da multidão. Era louco quem ousasse conversar com loucos ou ao menos olhar para eles. Ela não recebia esmolas. Ela recebia relances de medo e de hostilidade.
Fazia chuva, fazia sol, fazia neblina, ao som de buzinas, sirenes, apitos e xingamentos, respirando ar contaminado de toda gente que se acha mais e acima dela, na capa de chuva amarela. Caminhando anônima como tampinha de garrafa na enxurrada, sem memória, sem documento, sem destino, sem futuro. De cara suja, roupa imunda e capa contra a chuva de maldades. Isso tudo em uma moderna, cosmopolita e amarelada metrópole, em meio a pessoas, fumaças e olhadelas desconfiadas.
Que nesta tarde a tromba d'água caia sobre quem mereça, limpando bem a capa e a cara de quem é muito fácil distinguir em meio a uma nobre multidão.
Fazia chuva, fazia sol, fazia neblina, ao som de buzinas, sirenes, apitos e xingamentos, respirando ar contaminado de toda gente que se acha mais e acima dela, na capa de chuva amarela. Caminhando anônima como tampinha de garrafa na enxurrada, sem memória, sem documento, sem destino, sem futuro. De cara suja, roupa imunda e capa contra a chuva de maldades. Isso tudo em uma moderna, cosmopolita e amarelada metrópole, em meio a pessoas, fumaças e olhadelas desconfiadas.
Que nesta tarde a tromba d'água caia sobre quem mereça, limpando bem a capa e a cara de quem é muito fácil distinguir em meio a uma nobre multidão.
Rua Florida, 29, 5° andar sem elevador
O chiclete azul vagabundo competia com o piercing no meio da língua. Mechas vermelhas, unhas coloridas, inventando ídolos, inventando hashtags pra passar o tempo. Tédio. Tédio profundo. Quer roupas novas e um super-namorado. Tédio diante da tela. Talvez faça uma nova tatuagem. E outra, outra, mais outra, e outra por cima da outra, até ser ostra toda rabiscada, cheia de tédio, inventando e sendo escrava da tela do computador. Quer ser super-heroína e passar acetona nela inteira. Inventando e sendo escrava dela mesma.
Em calçadas, diversas, várias
Do alto do seu sapato rosa choque, vê as cinzas do cigarro caírem. Vê as cinzas da vida caírem. Em seu coração de manteiga vencida já não cabe mais ninguém. Hoje não quer se entregar em tratos repentinos e mal pagos.
Quer ficar parada, quietinha, olhando de longe a porta da jaula trancada. Mas que preguiça, que vida de guerra e vida trançadas que amedronta, e volta a ver as cinzas, parada, bem quieta. Sua atitute foi visitar o tédio, ovelha negra da família. Pior que ser ovelha negra é ser ovelha nua que não pode agasalhar a mais ninguém.
Parada, bem quieta, sentindo o morno da noite, como em febre e dor de garganta, sem dizer nada. Fingindo que trabalha, finge que é folga. E continua olhando de longe a saída da gaiola.
O amor não usa rosa choque.
Quer ficar parada, quietinha, olhando de longe a porta da jaula trancada. Mas que preguiça, que vida de guerra e vida trançadas que amedronta, e volta a ver as cinzas, parada, bem quieta. Sua atitute foi visitar o tédio, ovelha negra da família. Pior que ser ovelha negra é ser ovelha nua que não pode agasalhar a mais ninguém.
Parada, bem quieta, sentindo o morno da noite, como em febre e dor de garganta, sem dizer nada. Fingindo que trabalha, finge que é folga. E continua olhando de longe a saída da gaiola.
O amor não usa rosa choque.
Condomínio Ouro e Pedras Preciosas
Chegou em casa com a maguiagem borrada, arranhões no pescoço e o vestido rasgado em fúria. Que noite!!! Que dia!!! Que tarde!!! E que noite de novo!!! Não esqueceria nunca aquela situação de constrangimento e surpresa. Outra pessoa em sua vida lhe deixando memórias marcantes, em chama viva, com gosto de quero muito, muitíssimo. Que delícia amar em frente a um espelho de carne e osso. Sem culpa e cheia de volúpia. Vontade e mais vontade de experimentar, ousar, repetir e torcer para o desejo ser um engano, uma tentativa frustrada, um poço com fundo, raso.
Sem troca de telefones, sem promessas, sem amarras, sem amanhã. Apenas o olhar trocado e guardado no fundo da alma, que já se cansou do mesmo, do óbvio, do cheiro de nada e gosto de isopor. Um caso inédito em seus 27 anos, e que será repetido em sua mente por mais 27. Nada de esperanças, e nem de esperar o toque do celular, a chegada do e-mail, a carta impossível dos dias atuais. Foi só uma vez, ou melhor, uma ocasião, plena de tudo que há de mais sagrado do mundo do amor. Nada será como antes, nenhum sonho sérá melhor que este, nenhum encontro será tão louco, forte, prazeroso e imortal.
Tirou os sapatos e sentou no sofá de estampa zebrada. Meu Deus!!! Outra pessoa em sua vida lhe deixando memórias marcantes, em chama viva, com gosto de gloss de tutti frutti.
Sem troca de telefones, sem promessas, sem amarras, sem amanhã. Apenas o olhar trocado e guardado no fundo da alma, que já se cansou do mesmo, do óbvio, do cheiro de nada e gosto de isopor. Um caso inédito em seus 27 anos, e que será repetido em sua mente por mais 27. Nada de esperanças, e nem de esperar o toque do celular, a chegada do e-mail, a carta impossível dos dias atuais. Foi só uma vez, ou melhor, uma ocasião, plena de tudo que há de mais sagrado do mundo do amor. Nada será como antes, nenhum sonho sérá melhor que este, nenhum encontro será tão louco, forte, prazeroso e imortal.
Tirou os sapatos e sentou no sofá de estampa zebrada. Meu Deus!!! Outra pessoa em sua vida lhe deixando memórias marcantes, em chama viva, com gosto de gloss de tutti frutti.
Em qualquer lugar, ou todos, ou nenhum
Ok, hoje fingirei que sou sua. Direi vários "eu te amo" com cara de dor, porque amar é sentir dor. Em todo o corpo, atravessando o umbigo e fazendo cócegas na alma. Sairei com você para qualquer lugar, mesmo se for aquele de sempre, para tomar o que você pede sempre e ouvir o que você fala sempre. Essa rotina sedutora é o que me faz viva hoje ao estar ao seu lado.
Pedirei a você que vá com calma, que dirija com cautela e que tire a mão do meu joelho. Ora, é justamente o meu charme de femme très difficile que te prende na minha teia há anos. Com a cara cheia de gim tônica vai ser mais fácil passar pelo balé da sedução, virar para o lado e esperar a aurora do dia. Submeto-me à você porque sem você já não sei o que resta de mim. Porque com essa rotina passada a ferro de olhos fechados me tornei freira enclausurada. Sou casta no mundo e mundana em suas mãos. Se eu negasse o seu convite não dormiria essa noite. Aceitando o seu convite me sinto viva por esta noite. Não alcanço a tampa do vidro e se alcançasse não saberia abri-la de dentro para fora.
Hoje eu finjo que me vendo e você finge que me paga. E eu saio desta história mais uma vez sem nenhum tostão furado. Na próxima prometo não exagerar no gim e pintar as unhas dos pés do jeito que você gosta.
Sinto muito se ela não morar mais aqui.
Pedirei a você que vá com calma, que dirija com cautela e que tire a mão do meu joelho. Ora, é justamente o meu charme de femme très difficile que te prende na minha teia há anos. Com a cara cheia de gim tônica vai ser mais fácil passar pelo balé da sedução, virar para o lado e esperar a aurora do dia. Submeto-me à você porque sem você já não sei o que resta de mim. Porque com essa rotina passada a ferro de olhos fechados me tornei freira enclausurada. Sou casta no mundo e mundana em suas mãos. Se eu negasse o seu convite não dormiria essa noite. Aceitando o seu convite me sinto viva por esta noite. Não alcanço a tampa do vidro e se alcançasse não saberia abri-la de dentro para fora.
Hoje eu finjo que me vendo e você finge que me paga. E eu saio desta história mais uma vez sem nenhum tostão furado. Na próxima prometo não exagerar no gim e pintar as unhas dos pés do jeito que você gosta.
Sinto muito se ela não morar mais aqui.
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