Quando Judith se olhou no espelho, achou que algo estava diferente. Duas rugas apareceram na testa sem aviso prévio. Passou batom rosa e saiu de casa preocupada com as malditas pregas. Daqui a pouco uma amiga poderia pará-la na rua para perguntar sobre o que havia acontecido, sobre o porquê de rugas novas em sua testa. Mas já existiam outras tantas em sua face. Ninguém poderia perguntar uma coisa dessas. Era improvável demais. Mas o óbvio não existe, alertam os sábios.
Já dentro do mercado, atos mecanizados de quem faz a compra do mês há mais de 17 anos. Nem lista fazia mais. Por trás das rugas ainda havia uma mente sagaz, uma memória elefantina. Hora de colocar no carrinho a montanha de utilidades e inutilidades de sempre. Sem esquecer o biscoito recheado favorito da filha, os sucrilhos insossos do filho e o creme de barbear que o marido usava mais do que a pasta de dente. Sempre mais do mesmo. Parada, memórias elefantinas a tomaram. Como queria chegar em casa, ver o marido 15 anos mais jovem, dançar bolero na sala sem interrupção de filhos brigões, mandões, pidões, esquecer do tempo, beijar na boca sem pressa, ouvir juras de amor ao pé do ouvido e se esquecer no rolar da madrugada sob pesados cobertores.
De volta à realidade do arroz, amido de milho e acetona, Judith se esquiva da multidão de início de mês que invade todos os supermercados do planeta. Reza para não encontrar nenhuma amiga que note suas duas recém chegadas rugas de testa. Fica quarenta minutos na fila do caixa e repassa na mente todas as músicas de seu disco de bolero favorito.
Chegando em casa não há ninguém. Hora boa de tirar os sapatos e constatar que sentir o silêncio depois de uma certa idade parece meio mórbido. Lembrou-se de quando visitava o túmulo de seu avô ao lado da Vó Laurinda. Ela sempre dizia que ao chegar em casa era preciso deixar os sapatos do lado de fora. Terra de cemitério é suja e dá azar. Judith tinha vontade de jogar os sapatos fora, mas sapatos eram caros demais para serem sacrificados em atos de superstição.
Judih ficou horas sentada no sofá com memórias de boleros e cemitérios que resolveram visitá-la sem prévio telefonema. O tempo passado a tomou de assalto. Não queria ouvir o disco favorito e se lembrar de quando era jovem. Isso não resolveria nada. Aliás, Judith não tem problemas a serem resolvidos. Está só um pouco preocupada porque hoje não achou a marca de creme de barbear favorita de seu marido.
Acreditemos que é só isso. Deixemos a sala sem fazer barulho para que Judith dance seu bolero de rugas em paz. Sem sapatos, sem azar de cemitério, sem sucrilhos, nem brigas.
Já dentro do mercado, atos mecanizados de quem faz a compra do mês há mais de 17 anos. Nem lista fazia mais. Por trás das rugas ainda havia uma mente sagaz, uma memória elefantina. Hora de colocar no carrinho a montanha de utilidades e inutilidades de sempre. Sem esquecer o biscoito recheado favorito da filha, os sucrilhos insossos do filho e o creme de barbear que o marido usava mais do que a pasta de dente. Sempre mais do mesmo. Parada, memórias elefantinas a tomaram. Como queria chegar em casa, ver o marido 15 anos mais jovem, dançar bolero na sala sem interrupção de filhos brigões, mandões, pidões, esquecer do tempo, beijar na boca sem pressa, ouvir juras de amor ao pé do ouvido e se esquecer no rolar da madrugada sob pesados cobertores.
De volta à realidade do arroz, amido de milho e acetona, Judith se esquiva da multidão de início de mês que invade todos os supermercados do planeta. Reza para não encontrar nenhuma amiga que note suas duas recém chegadas rugas de testa. Fica quarenta minutos na fila do caixa e repassa na mente todas as músicas de seu disco de bolero favorito.
Chegando em casa não há ninguém. Hora boa de tirar os sapatos e constatar que sentir o silêncio depois de uma certa idade parece meio mórbido. Lembrou-se de quando visitava o túmulo de seu avô ao lado da Vó Laurinda. Ela sempre dizia que ao chegar em casa era preciso deixar os sapatos do lado de fora. Terra de cemitério é suja e dá azar. Judith tinha vontade de jogar os sapatos fora, mas sapatos eram caros demais para serem sacrificados em atos de superstição.
Judih ficou horas sentada no sofá com memórias de boleros e cemitérios que resolveram visitá-la sem prévio telefonema. O tempo passado a tomou de assalto. Não queria ouvir o disco favorito e se lembrar de quando era jovem. Isso não resolveria nada. Aliás, Judith não tem problemas a serem resolvidos. Está só um pouco preocupada porque hoje não achou a marca de creme de barbear favorita de seu marido.
Acreditemos que é só isso. Deixemos a sala sem fazer barulho para que Judith dance seu bolero de rugas em paz. Sem sapatos, sem azar de cemitério, sem sucrilhos, nem brigas.
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