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Caracol - a libertação

Eram muitas folhas de papel rasgadas pelo chão. O sol estalava do lado de fora. Dentro das veias corria o gosto da liberdade, com foguetes escandalosos e bebidas coloridas. Era o fim de um longo cadeado. De longos trilhos com graxa e pregos pontudos. A pele das solas dos pés já não suportava mais. Ser andarilho da rotina, da metrópole, das convenções, dos bons dias, dos pássaros citadinos sujos, das horas das catedrais, das pontes iluminadas, das chaminés incandescentes, das revistas gritantes, da moda severa, das calçadas transitadas, dos trens lotados, das plataformas inúmeras, dos defuntos mal enterrados, das baratas metarmofoseadas e das chuvas ácidas não era coisa fácil. Não era.
Em tarde de 19 de agosto daquele ano maldito, ele olhou no fundo dos olhos da garota mais bonita do bairro. Daí a confusão começou. Não foi culpa da menina tão linda e de sorriso largo. Ele era cismado, de sobrancelhas feias e queixo torto. Quase não se olhava no espelho e as agonias eram tantas que passava quase o dia todo ouvindo as mesmas músicas e lendo os mesmo livros. As novidades, a vida, o sol, a calçada, o semáforo, as atitudes, tudo, tudo o apavorava. Desenhava no ar círculos com a fumaça do cigarro. Imaginava festas, conversas perfeitas, final de arco-íris, estouro de champanha e foguetes assustadores. Quem sabe em meio a um susto da pólvora estalada ele a tomaria nos braços e a beijaria longamente. Como nos filmes, os mesmos de sempre. Imaginava porque a vida o apertava contra a parede. Ninguém é caracol pela eternidade. Não tinha amigos. Os cadeados foram crescendo pelas paredes. A vida foi ficando miúda e difícil, dando voltas no labirinto da lesma. Olhar nos olhos maquiados da garota mais linda do bairro foi uma vertigem. Sonhou com ela catorze noites seguidas. Emagreceu nove quilos. Deixou a barba crescer. Nunca mais fez viagem de caracol. Arrependeu-se de todos os sabores amargos do mundo por ter saído de casa naquele dia. Traição do caracol. Nada ficou em seu lugar dali em diante. Nada. O corpo ficava cada vez mais dolorido e a cabeça mais pesada. Onde estavam os foguetes assustadores da imaginação?
Era 30 de dezembro daquele mesmo maldito ano. Ele cada vez mais caracol de sobrancelhas caídas. O tempo não deu trégua de bandeira branca. Era vermelha. Encardida. Mesmos filmes e discos. Revistas e jornais. Guardou o exemplar de 19 de agosto de um jornal conhecido da cidade. Sabia todas as notícias de cor. A barba estava enorme e os foguetes estalados se antecipavam. O ano maldito saltaria a cerca. Mais um carneiro imundo na imensidão. Pensava em sair mais uma vez e aventurar-se no asfalto corrido e cuspido da cidade movimentada. As histórias da imaginação estavam calmas no último dia. Já havia lido as notícias do dia 19 de agosto. Era tempo de comprar um novo exemplar. E esquecer sorrisos, cabelos e paixão.
No dia seguinte os fogos estalaram mais que o necessário. O grande dragão do oriente não pousou em seu telhado e as armadilhas continuaram vazias. Foi um dia como outro qualquer. Ao passar da meia-noite, um rojão imenso explodiu no bairro e acertou algumas pessoas na calçada lotada de passantes. Bebidas coloridas voaram pelos ares. Arco-íris escorrido nas paredes. Arco-íris monocromático carmim pelo chão. Ele encalacrado em meio a cadeados e caracóis ouvia tudo de longe, em casa, com sobrancelhas arregaladas.
Em 1° de janeiro do outro ano, ainda não classificado como maldito, resolveu sair de casa para comprar o jornal. Saber as notícias do rojão assustador. Foram cinco os inocentes caídos naquela noite. Entre eles, apenas uma mulher, linda e reconhecível. Aquele ano seria um foguete assustador. A festa continuava. O sol estalava do lado de fora. Dentro das veias corria o gosto da liberdade, com foguetes escandalosos e bebidas coloridas. Era o fim de um longo cadeado. De longos trilhos com graxa e pregos pontudos.

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