Aquela seria a última vez. Pensava sobre os últimos anos vividos enquanto abotoava a camisa. Era preciso muita energia para cumprir o trato que havia de ser selado para sempre. Olhos perdidos no primeiro poste que se acendeu no início da noite no horizonte distante. As malas já estavam prontas. Os pensamentos não. Quanta manteiga rançada derramada na última noite. Quantos pássaros já haviam morrido lá fora até os anos se passarem todos. Até chegar a hora de abotoar o último botão e dizer basta.
O coração esperneava clamando calma. O cérebro esquiava feliz sobre a manteiga derretida. Saltava, voava, arquitetava piruetas, fazia careta na frente do espelho. O tempo era um devorador de folhas caídas das árvores. Ganhava sempre das traças penduradas no teto. Túnel longo sem sinal.
Ao fechar a porta e trancá-la com chave pensou em jogá-la fora, em meio a uma pilha imensa de folhas de outono perdidas. Coração perdido e desapontado. Ele perdeu a competição sobre a arena manteigosa. O cérebro farto de manobras se aquietou. Daí os sapos pularam até a garganta.
Toda memória vem com uma corda a tiracolo, perigosa e escorregadia. Percebeu que o último botão da camisa ainda estava aberto. Ao encerrar o processo de todos os botões em suas casas enfileiradas, apertou uma vontade imensa de colocar a chave na porta e cheirar a madeira dos móveis outra vez. Quando os móveis são bons de verdade, o cheiro não se desmancha no ar com o passar das folhas secas caídas de outono. O sabonete azul no banheiro ficaria feito pedra com a ausência dele. Tudo murcharia. Ou viraria pó. Ou viraria manteiga rançada. Pães mofados.
Começou a chover. A noite avançava como hiena em direção à caça morta há meses. Entre dar o primeiro passo e recuar três metros novamente para o interior da casa, passaram-se vinte minutos. Os olhos fixados na luz de um poste entre as centenas de outros acesos lá no horizonte distante. As folhas secas se encharcaram. A camisa mudou de cor. Tom escuro empapado. Sapatos gelados. Coração parado. Cérebro esquiando.
Decidiu finalizar a decisão de ir de vez ou não na calçada da rua, mas os pés encharcados não se descolavam do chão. Estava perdido. Decidiu entrar, trocar de roupa e esperar a chuva passar. A hiena já saboreava a carniça em seu sorriso infindável. Ele podia ouvir cada uma mastigando seu pedaço merecido. Os postes sumiram todos no horizonte atrás da névoa espessa formada pela chuva gelada. As hienas ficariam resfriadas. Cheirar de novo a madeira dos móveis era um alento. Adiaria a partida por algumas horas. Até a tempestade se esgotar. Até as folhas se amontoarem de novo na frente da casa. Jogaria a chave no meio delas ao partir novamente.
O corpo pesava sobre o sofá que se encharcava no compasso de cada respiração que ele dava. Sons das goteiras lá fora. Cérebro se desligando. Coração alarmado aos saltos. Ouvia mais uma vez a repetição do nome: Diana. Diana, Diana, Diana, Diana. O último 'a' sempre mais reforçado. Dianaaaa. Aquela seria a última vez. As hienas devoraram tudo. Só sobraram as penas verdes voando lentamente pelo quintal. Misturaram-se às folhas verdes caídas de outono. Como era inigualável sentar-se no sofá, cheirar a madeira dos móveis e não ter mais que partir. Certamente, aquele não era o plano. Assim como a chuva que chegou sem aviso. Depois de um tempo, a essência de madeira passou a deixá-lo estranho. Na porta de entrada avistou a memória. Ela trazia sua corda traiçoeira a tiracolo, rodeada de hienas risonhas.
O coração esperneava clamando calma. O cérebro esquiava feliz sobre a manteiga derretida. Saltava, voava, arquitetava piruetas, fazia careta na frente do espelho. O tempo era um devorador de folhas caídas das árvores. Ganhava sempre das traças penduradas no teto. Túnel longo sem sinal.
Ao fechar a porta e trancá-la com chave pensou em jogá-la fora, em meio a uma pilha imensa de folhas de outono perdidas. Coração perdido e desapontado. Ele perdeu a competição sobre a arena manteigosa. O cérebro farto de manobras se aquietou. Daí os sapos pularam até a garganta.
Toda memória vem com uma corda a tiracolo, perigosa e escorregadia. Percebeu que o último botão da camisa ainda estava aberto. Ao encerrar o processo de todos os botões em suas casas enfileiradas, apertou uma vontade imensa de colocar a chave na porta e cheirar a madeira dos móveis outra vez. Quando os móveis são bons de verdade, o cheiro não se desmancha no ar com o passar das folhas secas caídas de outono. O sabonete azul no banheiro ficaria feito pedra com a ausência dele. Tudo murcharia. Ou viraria pó. Ou viraria manteiga rançada. Pães mofados.
Começou a chover. A noite avançava como hiena em direção à caça morta há meses. Entre dar o primeiro passo e recuar três metros novamente para o interior da casa, passaram-se vinte minutos. Os olhos fixados na luz de um poste entre as centenas de outros acesos lá no horizonte distante. As folhas secas se encharcaram. A camisa mudou de cor. Tom escuro empapado. Sapatos gelados. Coração parado. Cérebro esquiando.
Decidiu finalizar a decisão de ir de vez ou não na calçada da rua, mas os pés encharcados não se descolavam do chão. Estava perdido. Decidiu entrar, trocar de roupa e esperar a chuva passar. A hiena já saboreava a carniça em seu sorriso infindável. Ele podia ouvir cada uma mastigando seu pedaço merecido. Os postes sumiram todos no horizonte atrás da névoa espessa formada pela chuva gelada. As hienas ficariam resfriadas. Cheirar de novo a madeira dos móveis era um alento. Adiaria a partida por algumas horas. Até a tempestade se esgotar. Até as folhas se amontoarem de novo na frente da casa. Jogaria a chave no meio delas ao partir novamente.
O corpo pesava sobre o sofá que se encharcava no compasso de cada respiração que ele dava. Sons das goteiras lá fora. Cérebro se desligando. Coração alarmado aos saltos. Ouvia mais uma vez a repetição do nome: Diana. Diana, Diana, Diana, Diana. O último 'a' sempre mais reforçado. Dianaaaa. Aquela seria a última vez. As hienas devoraram tudo. Só sobraram as penas verdes voando lentamente pelo quintal. Misturaram-se às folhas verdes caídas de outono. Como era inigualável sentar-se no sofá, cheirar a madeira dos móveis e não ter mais que partir. Certamente, aquele não era o plano. Assim como a chuva que chegou sem aviso. Depois de um tempo, a essência de madeira passou a deixá-lo estranho. Na porta de entrada avistou a memória. Ela trazia sua corda traiçoeira a tiracolo, rodeada de hienas risonhas.
É de perder o fôlego, angustiante, fica-se a espera da conclusão, é como algo estivesse para acontecer, suspense até o ponto final! Show!
ResponderExcluirIntenso,nos prende a cada minuto. Muito bom,linda! Parabéns!
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