Ainda restavam duas flores azuis debaixo do velho moinho. Nesta manhã esquálida de nuvens amontoadas, uma se foi, murchando e soltando a última gota de veneno que ainda restava. Escorreu pela folha e caiu no seco. Infiltrou-se o resto da flor no solo desgastado, batido e cheio de memórias.
As pás do moinho rodavam como ponteiros sem meta. A sina era girar os ventos do leste. Ela ainda estava lá, com seus cabelos ralos, espreitando tudo. A aldeia era ao lado. Os passos eram poucos até chegar ao engenho. Os morcegos ainda estavam sonolentos. Assustaram-se quando ela entrou pisando fraco sobre o assoalho. Voaram um a um seguindo os rumos do leste. Subia as escadas sem pressa. Queria chegar até a pequena janela mais alta. Saíra cedo de casa, antes que a avó fazedora de xale acordasse. Ver os campos pelos primeiros fios do amanhecer era mais revigorante e assustador.
Quando se instalou no alto, percebeu um corvo grande já morto. Lembrou-se da lenda que encontrar um corvo morto era azar pelos próximos oito anos. Olhando para os sapatos tão gastos tentou se lembrar se havia encontrado algum deles sem vida antes. A história parecia girar como as pás incansáveis do moinho. O antídoto consistia em arrancar oito penas do pássaro e enterrá-las debaixo de uma planta venenosa.
Pela escotilha minúscula do moinho sem mar ela alcançou com os pequenos olhos os campos que não verdejavam mais há muitas décadas. A terra estava sem cor. Sem chuva fresca. Sem ares de renovação. Os ventos eram altos e só acertavam as pás dos moinhos cambaleantes. Eram três, com suas teias de aranha seculares. A aldeia estava à esquerda e há muito já não sobrevivia da moenda dos grãos. Pensou que no passado talvez a aldeia tivesse sofrido uma tempestade de corvos mortos caídos de nuvens cinzas faiscantes. Repetições por oito anos. Poucas pessoas restaram para contar história para as magras gerações futuras. Não seriam grandes histórias.
Cuidadosamente pegou o corvo pelos pés e desceu as escadas do moinho. Não havia marcas de ataque. Ele morreu mansamente com o frio da noite. A morte talvez seja mansa quando se está fora do corpo. Que a alma do corvo tenha sido levada pelos ventos do norte que movem as pás. Ao sair do moinho ainda não era dia. E nem seria. O inverno chegava. Os dias eram curtos e estranhos. Sentia-se sempre sem ar. Cavou atrás do engenho uma cova não muito profunda e lá deitou o corvo com suas penas intactas.
Considerava-se a partir daquele dia a lenda do azar de corvos mortos extinta. Era assim que pensava com o girar das pás mentais. Sua falta de sorte não perpetuaria em reflexos de espelho. Era o fim de tudo aquilo que fazia morder seu coração. Voltava para casa com a cabeça alguns graus mais acima. Claro que avistou a última flor azul que sobreviveu à peste que carcomeu o jardim inteiro. Solitária venenosa. Ali não pousariam penas de corvos desarvorados. Pensou em arrancá-la para enfeitar os cabelos ralos. Mas não. A terra devastada ainda merecia mais uma flor azul. O seu veneno alertaria o povoado de males futuros irreversíveis.
As pás do moinho rodavam como ponteiros sem meta. A sina era girar os ventos do leste. Ela ainda estava lá, com seus cabelos ralos, espreitando tudo. A aldeia era ao lado. Os passos eram poucos até chegar ao engenho. Os morcegos ainda estavam sonolentos. Assustaram-se quando ela entrou pisando fraco sobre o assoalho. Voaram um a um seguindo os rumos do leste. Subia as escadas sem pressa. Queria chegar até a pequena janela mais alta. Saíra cedo de casa, antes que a avó fazedora de xale acordasse. Ver os campos pelos primeiros fios do amanhecer era mais revigorante e assustador.
Quando se instalou no alto, percebeu um corvo grande já morto. Lembrou-se da lenda que encontrar um corvo morto era azar pelos próximos oito anos. Olhando para os sapatos tão gastos tentou se lembrar se havia encontrado algum deles sem vida antes. A história parecia girar como as pás incansáveis do moinho. O antídoto consistia em arrancar oito penas do pássaro e enterrá-las debaixo de uma planta venenosa.
Pela escotilha minúscula do moinho sem mar ela alcançou com os pequenos olhos os campos que não verdejavam mais há muitas décadas. A terra estava sem cor. Sem chuva fresca. Sem ares de renovação. Os ventos eram altos e só acertavam as pás dos moinhos cambaleantes. Eram três, com suas teias de aranha seculares. A aldeia estava à esquerda e há muito já não sobrevivia da moenda dos grãos. Pensou que no passado talvez a aldeia tivesse sofrido uma tempestade de corvos mortos caídos de nuvens cinzas faiscantes. Repetições por oito anos. Poucas pessoas restaram para contar história para as magras gerações futuras. Não seriam grandes histórias.
Cuidadosamente pegou o corvo pelos pés e desceu as escadas do moinho. Não havia marcas de ataque. Ele morreu mansamente com o frio da noite. A morte talvez seja mansa quando se está fora do corpo. Que a alma do corvo tenha sido levada pelos ventos do norte que movem as pás. Ao sair do moinho ainda não era dia. E nem seria. O inverno chegava. Os dias eram curtos e estranhos. Sentia-se sempre sem ar. Cavou atrás do engenho uma cova não muito profunda e lá deitou o corvo com suas penas intactas.
Considerava-se a partir daquele dia a lenda do azar de corvos mortos extinta. Era assim que pensava com o girar das pás mentais. Sua falta de sorte não perpetuaria em reflexos de espelho. Era o fim de tudo aquilo que fazia morder seu coração. Voltava para casa com a cabeça alguns graus mais acima. Claro que avistou a última flor azul que sobreviveu à peste que carcomeu o jardim inteiro. Solitária venenosa. Ali não pousariam penas de corvos desarvorados. Pensou em arrancá-la para enfeitar os cabelos ralos. Mas não. A terra devastada ainda merecia mais uma flor azul. O seu veneno alertaria o povoado de males futuros irreversíveis.
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