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Assassinato rápido

Não conte a ninguém  Mas o dia nasceu Com uma hora a menos Se você contar a alguém O dia não será o mesmo Haverá uma pessoa a menos No dia em que você nasceu Eu não contei a ninguém Não conte a ninguém  Sobre o que conversamos ontem O dia foi forte E cheio de sorvetes Não conte a ninguém Porque essa uma hora a menos Do dia imperfeito É minha salvação Havia muita gente Ninguém percebeu Uma hora a menos  É o de menos Não posso contar a ninguém Mas ontem te confessei Entre sorvetes O dia nasceu manco Sem uma hora de sol quente Então não conte a ninguém Porque este intervalo  De uma hora Fez de mim alguém diferente Guardo segredos de uma hora Foi ontem Te confessei Não conte a ninguém Em uma hora dá e sobra Para matar a seco Os desejos de alguém. Não conte a ninguém. Não conte a ninguém.

Grampos velhos

Cartazes de filmes velhos para todos os lados e a certeza que as nuvens não correrão no céu hoje. Amanhã Cícero deve dar uma olhada na janela da vida e tomar aquelas providências necessárias. Talvez corte o cabelo e faça a barba, talvez resolva comer coisas mais saudáveis, talvez resolva esperar a quaresmeira cair as folhas para começar a mostrar as suas próprias, mais verdes e encorpadas. Não vê muita novidade em horas ou dias futuros, mas toda a tralha já amontoada em seu pequeno quarto trazia náuseas da caixa fétida chamada memória. Quantas vezes ainda se imaginava menino guardando suas primeiras caixas de sapato. Era tão difícil conseguir uma. Sapatos eram caros. E a humanidade inteira pensava antes dele o que fazer com elas. Quando juntou duas, que alegria. Depois começou com as latas de sardinha. E as de azeite também. Os frascos plásticos de mostarda, condicionador e gel eram uma tentação. Tinha uma caixa pequena de remédio lotada de grampos velhos. Caixas de remédios Cícero ti...

Ampulheta amarela

Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. A areia fina passou pelo buraco estreito correndo com pernas inacreditáveis. O grisalho apareceu ali e depois. Dentro da cabeça ainda um resto de novas tentativas. Faria tudo outra vez. Ou não. Cada um sabe o que lhe cabe dentro das memórias encardidas. No meio da selva inteira havia resto de compaixão. Um olhar mais fundo, mergulhador sem pés-de-pato. Cada centímetro da sala, do quarto, da cozinha, da casa inteira já havia sido percorrido em noite em claro. Tentativas inúmeras. Mãos na maçaneta. Mãos à obra. Sair com a roupa de sempre, cruzar a rua e fumar uma porcaria qualquer. Depois, ler de longe as manchetes salobras dos sensacionalistas. Daí, um café sem palavras óbvias sobre sóis ou temporais. Caminhar mais, mais longe, mais fundo, mais depois de quatro ou cinco esquinas. Sentir os pés querendo sentido contrário. Sentindo o coração querendo sentido contrário. Sabe que a mente não fará o contrário. Pedaços de rotina com peda...

Flora inteira

Caminhando Passos na arena Tulipas frescas Pálpebras abertas Pegadas retraídas Xadrez na floresta Língua contorcida Restos de promessa Lavando a alma Com gotas Pequenas de Alvejante Na próxima porta Amor-perfeito Encontrar O jogo eleito De lençóis e fronhas Para perfumar No fim Cheiro forte Jasmim Dedos perfeitos Na última música Trazendo o que resta Promessa Pequenas gotas De tudo Violetas Xeretas E continuo Até terminar Com a flora inteira.

Janela aberta

O laço apertou tanto que nem a unha aguentava desatar. Fio umbilical tenso. Esticado sobre pontes duvidosas. Olhar apaixonado acreditando no sempre. Quantas horas cabem no sempre? Quantas manhãs cabem em um sim? Reinventar a criatividade mórbida. Amanhece o dia e a certeza dormiu do lado de fora. Menina traiçoeira. Entre a cara feia e a cara de vingança, ficou com a de desprezo, porque o dia seria imenso, bem do tamanho das obviedades. Ficaria horas maquinando palavras, distorcendo-as com alicate, engraxando as pontuações, cortando com tesoura enorme de jardim os excessos que não deveria cometer durante o dia. Ele não poderia perceber. Mas ele nunca percebe nada. É um buda sentado olhando eternamente para o próprio umbigo. Lágrimas de lado. Era a hora de desafogar as memórias torpes. Exercitar os punhais do mundo mágico do tempo perdido. Era a quarta tentativa. Afogando, respirando, tentando e frustrando. Laço cada vez mais reprimido. Todos os cafés foram mudos depois de dois anos de...

Nem tão doce assim

Contradições, contradições Maldições Com pele de lobo Uivando para a lua Com dentes afiados Desafiando a carne crua Escuridão, escuridão Alcançar a jarra cheia de nãos Lua cheia com embaraço nos cabelos Desodorizar esquinas dos esqueletos Cada vez o passo se aproxima Veia estufa Sangue escorre Corre em veias Uivos doentes de espera Doze horas Doces horas da noite Estrelas malditas com ares infantis Sardas de um céu demente Eu minto quando digo que já vi Esse filme de terror pela última vez Contradições, contradições Contradigo o feito, o mal feito As manchas do esqueleto O charme das profundezas De estar diante de mim.

Rainha de paus

Aquelas sementes jogadas no chão não eram bom sinal. Eram grandes, de cor marrom, horríveis. Esmagadas algumas, inteiras outras. Até a água que caía do seu copo podia revelar sinais terríveis para o dia seguinte. E a cartomante maldita que depositou ainda mais medo na situação. Desvirou o enforcado, o quatro de copas e a torre. Indicações de laços rompidos, más notícias, notícias pela metade, metades sem notícias. Para que foi naquele inferno antes mesmo do dia amanhecer saber do futuro através daquelas lâminas malditas? O calor refletia na testa gotas monstruosas. A melancia chorava lágrimas negras sobre a mesa e o dia começava a escurecer com a força de uma descarga desregulada. Ainda sobre a cama a pilha de quinquilharias ditas úteis para a fuga. O santo na parede com o olhar severo, desaprovando tudo e enviando sinais temerosos, de parar o relógio e a respiração. Ouve passos de ratos nos tímpanos. E ela desvirou ainda com aqueles dedos magros cheios de anéis azinhavrados e pedras...