As lágrimas dela eram amarelas. Isso mesmo. Um amarelo transparente, desmaiado, nada compacto. Não era paracetamol. Eram lágrimas levemente amareladas. Não eram comuns, da cor d'água, escorrendo pelo rosto e engolindo a poeira da pele. Eu sei que ela havia lavado o rosto há pouco tempo. Porque já havia chorado muito antes e trazia os globos oculares plenos de veias finas vermelhas. Chorava sempre escondida. Eu achava que era vergonha de menina que não deseja ser vista em mais um de seus inúmeros momentos de fraqueza. Na verdade, ela tinha era medo. Muito medo toda vez que entrava no pranto compulsivo com caretas de teatro grego. Até babava de tanto drama. Ela demonstrava receio de alguém descobrir que sua lágrima era amarela. E eu sempre imagino se tem gosto de abacaxi, ou de paracetamol. Mas não é amarelo-vivo, que nem o sol, o açafrão ou o ouro. Ela não gotejava ouro. Era tola demais para isso. Mas que é um mistério, isso não podemos negar. Não foi reflexo ou jogo de luz. Não foi...