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'Trecho IV'

(...) Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas em que Soraia esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos. Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável. Lábios rach...

Março

No horizonte havia um rasgo Amarelo na imensidão cinza Outono que se calava  Chuva doce que caía Com cheiro de mate Marrom Para que mate a saudade Que ficou no reflexo De uma pétala caída Feito algodão Cinza O tempo é maldito Amarela memórias Ressalta despedidas Cinza na imensidão amarela Outono que se calava Tempestade que se repetia. 

Danger

Chegou em casa cheia de lama nos pés. Havia perdido os sapatos pelo caminho depois do temporal. A primeira coisa que fez foi tomar xarope e abrir o dicionário de francês. O que estava escrito no portão da garagem da última rua do bairro Ária era o que a intrigava. A casa já estava cheia de pegadas de terra. O xarope não a deixaria adoecer e o banho poderia ser adiado para mais tarde. Procurou no dicionário a letra P. Percorreu praticamente todas as palavras. A ausência da palavra buscada a fez ler até o desnecessário. Frustrada, despedaçou o livro golpeando-o na parede. As mãos sem lama encharcaram-se nas lágrimas. A garagem não era aberta por pelo menos vinte anos. Quase ninguém morava mais por perto. Ária era um bairro de poucos habitantes. Quase todos se foram pela violência. A palavra em francês pichada na porta de metal em tinta verde fosforescente era a única coisa que coloria Ária. E ela percebera isso quando passou de ônibus em um dia qualquer. No começo, intrigou-se pela pal...

I want it

Escolher palavras Entortar estradas Tomar cachaça Tomar decisão Escolher a rota Da fuga mais próxima Saber dizer Com cautela o não Entre fios e meios Começos e pesadelos Padeço um terço De tudo em vão Tratar de correr Da água parada Saliva armada Um tropeção Sair bem cedo Deletar a memória Deixar escorrer Lágrima sólida Na palma Da sua mão.

O mal de Analice

Sentada na cadeira de uma sala vazia, Analice é o vício que se repete por não ter mais aonde ir. Foram-se todos. Todos em um dia de lua quarto crescente. Crescia em seu peito avencas enormes de dias abandonados. Avencas selvagens. Que nascem à toa e morrem em um dia sem testemunhas. Seus olhos estavam secos, como a boca e os órgãos do corpo inteiro. A porta bateu com força. Ela nem se moveu. Escutou passos em sua direção. Não olhou para trás. Não se interessou em quem poderia ser. Todos se foram em um dia de lua de quarto crescente. Estava só com os pés sobre o chão imundo e frio. Um cheiro de cigarro estacionou em suas narinas. Imaginou quem poderia ser. Cheiros sempre a apunhalavam o coração, abrindo arquivos emperrados de vinte anos ou mais. Cheiros eram deuses que desciam a terra, esfregando-lhe no nariz quadros com pinturas reconhecíveis. Pinturas aceitáveis de terra firme. Pinturas medonhas de mares impossíveis. Sentiu uma mão morna sobre seu ombro esquerdo. O tato não lhe trazi...

Depois do fim da tarde

Guardou todas as facas e cobriu a cabeça com o lençol. Medo de escutar outra vez o uivo misterioso do outro lado da rua, vindo de detrás de um enorme portão pintado de azul. Poderia ser um cão raivoso, decerto, mas o uivo tinha algo de humano, de dor, de desconsolo, de situação mal parida. Todos os dias esse medo lhe percorria a espinha e encontrava lugar em suas memórias do dia anterior. Uma pilha de memórias que se acumulava a cada dia, como papéis em uma repartição pública preguiçosa. Debaixo do lençol, imaginava como seria a criatura uivante, como seria sua pelagem e seus olhos. Assustadores os seus olhos debaixo do tecido de sua vergonhosa existência. Todos os dias tentava arrumar a casa e não conseguia. Todos os dias tentava comer regradamente e não conseguia. Todos os dias pensava no pior. Que o pior pudesse acontecer dali a poucos segundos. Que se ele não alinhasse todos os fios da faca na gaveta, o cão-humano uivaria sua pena, como a mais terrível do universo. Os uivos eram d...

Verão - presságio

Verão No calor das pedras As andorinhas que não se foram Nos buracos de seus ninhos Uma cidade inteira de carros E depressão Verão Todos os dias Folhas jovens e duras Lavadas em horas marcadas Perdidas, tão certas Esverdeadas Todos os dias Andorinhas Fazendo ninhos de impressão Pedras urbanas Testemunhas do tempo Que passou tão rápido Presságio Verão.