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Naipe de espadas

Depois que a cartomante disse que ela teria um dia ruim pela frente, marcado por um encontro inesperado e terrível, não foi mais a mesma. Odiava as cartas de espadas. Sempre havia tensão, rompimento e ódio atrás de cada uma delas. Já estava arrependida de ter ido à dona Ivetina. A cabeça latejava e as mãos suavam. Queria ter visto mais o naipe de copas, com seus encontros, compromissos, novas relações de amor ou amizade... Mas em quase todo o jogo, estava lá a porcaria das cartas sombrias de espadas. A cada esquina, um solavanco no peito; a cada semáforo, uma fisgada na têmpora; em cada buzina que ouvia, sentia o calafrio do atropelamento, da vida se esvaindo mansa, como uma chaleira que esfria. Sentia os pés flutuando sobre o asfalto. O corpo dormente ansiava pelo pior. A cartomante era experiente, com suas cartas encardidas e meio amassadas. Muito uso diante de quem quer dominar o destino. Sempre ouvia coisas bonitas e férteis - novos projetos e estudos quando paus aparecia ou um di...

Coffee or tea

Da vida sabia Que o chá-de-mate não resolveria Nem as plantas aguadas Nem os galhos crescidos Da vida sabia Um pouco de cada Remédio a cada loucura E do chá-de-cadeira Da vida sabia Muito das nuvens ligeiras Que enganam a visão Do tempo que toma Chá-de-sumiço Da morte sabia Quase nada Chávena apagada Cáctus que brota no lugar Do pé de assa-peixe.

O piano de capricórnio

"Quando os dedos se afundam com muita força nas teclas do piano, isso indica que é hora de retroceder. É hora de repensar e fazer de um modo distinto". Pensava assim todos os dias Geandra, com seus dedos longos e talentosos. Um tanto tristes nos últimos dias. O estômago estava sempre pesado. Pequenas pedras engolidas diariamente. O alento de Geandra era inventar músicas novas no piano surrado. Mas com os dedos pesados de preocupação, ela não estava criando nada. Peixes mortos na superfície do aquário. Capricornianos são desse jeito, trazendo pontada de infelicidade na alma. Querendo que tudo saia corretamente nos planos mundanos. Geandra fazia aniversário na véspera do ano novo. Ela odiava simpatias minutos antes do primeiro de janeiro. Odiava a felicidade repentina de quem depois apresentaria cansaço e descrença na vida pelos próximos 365 dias, trabalhando em coisas que não acreditavam. Geandra acreditava em seu piano, e em suas criações. Gostava de ficar sozinha, de admira...

Medo

É que a vida às vezes dá rasteira e você não cai de pé O medo sobe pelo esôfago Desce pelo ralo Enfia-se em buracos Volta redivivo E busca um espelho Cabelos eriçados, espantados Espantalho diante do reflexo Da vida que não dá trégua Ela dá um laço Nó apertado E no mormaço diante do espelho Lá está o medo Cheio de tentáculos Tentando descaradamente Embriagar os estilhaços Cravados no meu rosto.

'Trecho IV'

(...) Já era noite. As mesmas ruas diante dos olhos pequenos e pretos de Soraia. Nem percebeu o dia se escondendo atrás dos prédios. A fome não voltaria mais até o amanhecer seguinte. Ela se alimentava na veia de dúvidas e medos. Perguntou quanto era e a moça, que nem percebeu as horas em que Soraia esteve colada à cadeira, deu o troco mecanicamente sem olhar em seus olhos. Mais um dia terminava e Soraia apertava em suas mãos o dinheiro valioso que tinha e o embrulho pequeno surrado. Enquanto saía cruzou na porta com uma moça de baixa estatura, longos cabelos loiros e sobrancelhas pretas grossas. Seu cabelo tinha cheiro de chá de camomila. Soraia ficou parada, observando-a por uns largos minutos a comprar cigarros e três pães de sal. Tinha a boca rosa-choque e acendeu o cigarro ali mesmo. Estragaria o perfume dos cabelos lisos com aquela fumaça toda. Seus olhos se encontraram após o troco. A loira reparou em Soraia os olhos secos e fundos, de quem sofria de mal incurável. Lábios rach...

Março

No horizonte havia um rasgo Amarelo na imensidão cinza Outono que se calava  Chuva doce que caía Com cheiro de mate Marrom Para que mate a saudade Que ficou no reflexo De uma pétala caída Feito algodão Cinza O tempo é maldito Amarela memórias Ressalta despedidas Cinza na imensidão amarela Outono que se calava Tempestade que se repetia. 

Danger

Chegou em casa cheia de lama nos pés. Havia perdido os sapatos pelo caminho depois do temporal. A primeira coisa que fez foi tomar xarope e abrir o dicionário de francês. O que estava escrito no portão da garagem da última rua do bairro Ária era o que a intrigava. A casa já estava cheia de pegadas de terra. O xarope não a deixaria adoecer e o banho poderia ser adiado para mais tarde. Procurou no dicionário a letra P. Percorreu praticamente todas as palavras. A ausência da palavra buscada a fez ler até o desnecessário. Frustrada, despedaçou o livro golpeando-o na parede. As mãos sem lama encharcaram-se nas lágrimas. A garagem não era aberta por pelo menos vinte anos. Quase ninguém morava mais por perto. Ária era um bairro de poucos habitantes. Quase todos se foram pela violência. A palavra em francês pichada na porta de metal em tinta verde fosforescente era a única coisa que coloria Ária. E ela percebera isso quando passou de ônibus em um dia qualquer. No começo, intrigou-se pela pal...