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Solvente

Dos azuis encontrados Estendidos na relva Salvam-se os que foram pintados Por humanos que ainda creem na salvação Dos vermelhos tirados Das árvores mortas Ficam os pontilhados Das lanternas que vigiam Dos verdes desbotados Em casas esquecidas Restam retratos e tatuagens Sob lápides vigorosas Dos amarelos sorridentes Espetados nos montes Valem os que persistem Nas guerras incontroláveis dos egos Dos brancos pálidos Em barbantes podres Amarram-se gentilezas perdidas Impossíveis de serem vistas O tempo fechou sobre o marrom dos telhados Das lamúrias que eram de vidro.

Ária 1

   Passou ao lado do tocador de órgão que recebia moedas em um quepe cáqui, estendido ao público pela mão esquerda. A música do realejo ecoava pela Avenida 16 de Setembro, juntando-se a tantas outras canções que se misturam pelos ares da cidade. Uma metrópole movimentada pelos mesmos rostos morenos, passando pelas mesmas ruas, cheias de casacos em pleno outono abafado. Havia quase ninguém no interior das lojas, que raramente anunciavam promoções. A 16 de setembro desembocava no Zócalo, uma praça imensa, histórica, cheia de patrimônios e multicultural. Uma bandeira enorme do país flanava vagarosamente em seu centro. Esticada à direita, como se o vento a segurasse em suas pontas, exibindo-a aos visitantes.    Um campo aberto, com muitas vozes, crianças correndo, pessoas tirando fotos com a catedral ao fundo, com seus sinos pesados anunciando celebrações. Lá dentro, o Senhor do Veneno olhava cabisbaixo, crucificado e negro, todos os passantes, todos os pedintes, todo...

Conversa plana

Entre as almofadas vermelhas Conversávamos sobre O vento que não cessa As bailarinas de Degas A maçã revolucionária de Cézanne Sobre a sorte que permeia as mesas E nunca nos atende Talvez sejamos céticos Demais Preferimos odaliscas coloridas de Matisse A perfeição de Ingres Colávamos nossas falas nas paredes Para que alguém nos admirasse Até chegar um poster de Warhol E esconder as letras curvas.

Depois de 1926

No espelho, nossas avós parecem mais jovens do que quando a olhamos no fim do dia. Todas as rugas são marcas do que falaram, lutaram e vestiram. Todas as manchas na pele demonstram que "o sol nasce para todos". Não adianta aumentar o volume dos fones nas orelhas porque o inevitável é uma coruja reluzente que sorri para todos. São repetições de nossas mães apoiadas em teorias de páginas mais amareladas. Vestiram um dia o que hoje não se usa mais. Tentam entender o que não havia em sua época. De fogão de lenha ou de extrema economia do gás. De andar de trem que não podia ser perdido porque o próximo viria só no dia seguinte. Trazem ainda ideias econômicas, resquícios de um pós-guerra que nunca mais voltou. Apesar de a guerra ainda não ter saído dos próximos livros de história. O café deve ser economizado. Assim como os palitos de fósforo e o sabão em pó. E os papéis que embalam presentes. E as sacolas plásticas. E os vidros e latas vazios. Acumulam-se. Despencam-se. Opinam s...

Cinco minutos

Laudi é uma chata e sempre insiste em me acompanhar pelas ruas quando estou voltado para casa, depois de uma caminhada pelo parque. Faço de tudo para que não me veja, mas seus olhos de lince são únicos. Têm visão de raio-x. Laudi não tem noção nenhuma do correr do tempo. Eu sim, pois uso relógio de pulso desde os oito anos de idade. Primeiro, usei um digital porque era mais fácil. Depois ganhei um com algarismos arábicos, com o qual custei me acostumar. Logo em seguida, exigi um com algarismos romanos. Ninguém sabe algarismos romanos hoje em dia. É como se o relógio marcasse as horas em códigos. Gosto de saber o que quase ninguém entende. Laudi não sai de casa sequer com o celular. Uma vez a perguntei sobre onde ficava o Parque das Castanheiras. Ela me indicou as ruas e disse que eram vinte minutos de caminhada até chegar lá. A indicação das ruas estava correta, mas levei cinquenta minutos para avistar a primeira árvore do parque. Aquilo me irritou profundamente e meu ódio por Laudi cr...

Calçada mundana e sua falta de definição

Há dias que são intermináveis para ela que anda dormindo tão mal. Não são problemas que atravessam o caminho. São dias que parecem estar meio do avesso. Hoje ouviu a campainha tocar duas vezes. Debruçou-se na janela e viu que não era ninguém. Durante o banho, o telefone tocara, mas não conseguiu identificar a chamada perdida. Porque não havia chamada. Havia cansaço e delírio. Passou o dia outra vez sem conversar com ninguém porque temia contrariedades sobre o que andava fazendo. Mas ela não andava fazendo quase nada. Apenas esperava. Um retorno, uma música favorita na rádio, uma fruta que não apodrecesse tão depressa, uma meia que não sumisse na gaveta, um pássaro que cantasse na janela, uma chuva forte repentina, o conserto mágico de seu guarda-chuva predileto. Até a leitura final do seu livro de cabeceira. O livro era bom, mas dormia depois das duas primeiras páginas. Se o livro era bom, como conseguia dormir? Onde estava a magia dos olhos abertos e atentos sobre personagens, tramas ...

Sentimentos portáteis

Não foi assim tão fácil Colocar nossos sentimentos portáteis Em um salão tão vasto Decorado Com leques e ameixeiras Não identificamos a cor das paredes Puxamos a cadeira Sentamos no meio do ar que gelava, vindo do lado de fora A cada lufada Um descanso na alma Entre almofadas vermelhas novas Éramos só nós E nossos sentimentos portáteis Não identificamos as paisagens dos quadros Estávamos perdidos Exatamente onde queríamos A chuva caiu às cinco da tarde.