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Dona Esmeraldina

Dona Esmeraldina ligou pra mim às quatro da tarde. O assunto era urgente, sobre uma sobrinha que a destratara pelo telefone, horas antes, só porque ela se recusou a ajudá-la financeiramente em um empréstimo bancário. Moro na mesma rua de Dona Esmeraldina e a conheço há mais ou menos um ano. Não é muito tempo, mas sempre conversamos desde que mudei para perto dela, moradora da região há mais de vinte anos. Era a segunda vez que Dona Esmeraldina me ligava. Morava sozinha, viúva e sem filhos. Tinha cinco sobrinhos adultos, que volta e meia a infernizavam, quase sempre sobre dinheiro. Ela podia ter ligado para diversos outros moradores da rua, vizinhos antigos, mas acabou ligando pra mim, no meu dia de folga, para desabafar assuntos familiares. Eu, com cara de boazinha, devo ter despertado a confiança de Dona Esmeraldina. Atravessei a rua e toquei a campainha da casa às 16h17. Não demorou muito e ela atendeu. Nunca havia entrado em sua casa. Nossas conversas eram no portão ou pela janela...

O imóvel

Na rua Aurora, havia uma casa tão linda. A fachada era pequena, com janelas brancas de madeira, sempre abertas, convidativas. Com dois andares, espremida entre prédio enormes, era a única das poucas casas da rua com jardineiras florindo cores brancas e roxas. A construção era de tijolos vermelhos e não levava tinta. Uma arquitetura, no mínimo, exótica, para estes lados, abaixo da linha do Equador. Todos os dias, em minha caminhada ao trabalho, a pequena casa reluzia em dias ensolarados ou parecia mais aconchegante do que nunca em dias nublados ou chuvosos. Uma joia delicada em meio ao urbanismo seco e crescente. Sempre imaginava o que havia depois das cortinas marfim. Até que, em um dia muito quente de primavera, avistei uma senhora, de cabelos brancos e se apoiando em uma bengala, saindo para a rua, com uma bolsa de mercado. Diminuí meus passos para observá-la, enquanto ela fechava o portão baixo, em ferro batido, com toda a tranquilidade que uma manhã de primavera exige. A partir d...

Minha alma retalhada

Cicatriz sobre cicatriz Alma de pele grossa Tantos cortes Entre o frio na espinha e o golpe de sorte Não houve meio termo Cicatriz sobre cicatriz Não me envaideço porque Nem todos sabem notar Cortes Quando já boiamos mortos em lágrimas acumuladas.

Despedida patética

Ajeitou a presilha no cabelo, colocou uma echarpe verde e saiu. O bar Amores ficava a poucos metros de seu apartamento. Caminhou calmamente pelas ruas, pois estava no horário certo. Entrou no bar, mas a amiga ainda não tinha chegado. Típico de quem se atrasa em todos os encontros. Não pediu nada ao garçom e ficou somente na espera. Quinze minutos se passaram; meia hora se passou. Nada da amiga viciada em atrasos. Ela havia marcado aquele encontro com ares de mistério, pois não queria dizer nada ao telefone. O bar Amores já estava bem cheio, e ela muito constrangida por estar sozinha, sem consumir nada. Alguns homens, de quando em vez, encaravam-na. Sozinha, ela erguia o pescoço e tentava ver pela vidraça se a amiga estava se aproximando. Acabou por ver outra amiga passando pela calçada. Ansiou para que ela entrasse. Mas o bar Amores não era o seu destino. Enquanto pensava em se levantar, um rapaz de olhos verdes e com ares de timidez, sentou-se em frente a ela. Com um olá rápido, diss...

Tarô e domingo

A aurora é cortada Pelos pássaros que madrugam Assim como A carta da temperança é cortada Pela carta da estrela Com sua caixa de pandora Cheia de esperança e males Não se deve mexer com o futuro Quando o presente é Somente Uma aurora cortada pelos pássaros que madrugam.

Flores amarelas - o mais lido do blog; publicado em 2014 no Relevo, jornal literário paranaense

Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável. Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos pe...