Pular para o conteúdo principal

Postagens

As flores azuis no moinho (a menina e o corvo)

Ainda restavam duas flores azuis debaixo do velho moinho. Nesta manhã esquálida de nuvens amontoadas, uma se foi, murchando e soltando a última gota de veneno que ainda restava. Escorreu pela folha e caiu no seco. Infiltrou-se o resto da flor no solo desgastado, batido e cheio de memórias. As pás do moinho rodavam como ponteiros sem meta. A sina era girar os ventos do leste. Ela ainda estava lá, com seus cabelos ralos, espreitando tudo. A aldeia era ao lado. Os passos eram poucos até chegar ao engenho. Os morcegos ainda estavam sonolentos. Assustaram-se quando ela entrou pisando fraco sobre o assoalho. Voaram um a um seguindo os rumos do leste. Subia as escadas sem pressa. Queria chegar até a pequena janela mais alta. Saíra cedo de casa, antes que a avó fazedora de xale acordasse. Ver os campos pelos primeiros fios do amanhecer era mais revigorante e assustador. Quando se instalou no alto, percebeu um corvo grande já morto. Lembrou-se da lenda que encontrar um corvo morto era azar pe...

As flores azuis no moinho

Comia as flores azuis do jardim Rodopiava com os ventos do leste Eram faltas enormes Era ruim não ter as frutas do tempo Mastigava as folhas e cumpria o ritmo Nuvens que passavam trêmulas Sinos que tocavam todos os dias A mesma onda assustadora que invadia Todos os cantos do moinho As pás giravam Com os ventos rodopiantes do leste As folhas caíam para ser mastigadas A lama pisada apontava os rastros As mesmas folhas esperavam o sol partir Flores azuis de frio, de cegueira, de decepção Ondas lavaram os moinhos Sinos tocaram canções do leste A primavera do alto é mais soturna Netuno zangou-se demasiadamente O jardim estava vazio e as vozes sumiram As nuvens se estacionaram sobre o calor Distante, muito distante dali Era hora de regressar Flores azuis ao oeste Girando nas pás incansáveis dos gigantes comedores de vento.

Caracol - a libertação

Eram muitas folhas de papel rasgadas pelo chão. O sol estalava do lado de fora. Dentro das veias corria o gosto da liberdade, com foguetes escandalosos e bebidas coloridas. Era o fim de um longo cadeado. De longos trilhos com graxa e pregos pontudos. A pele das solas dos pés já não suportava mais. Ser andarilho da rotina, da metrópole, das convenções, dos bons dias, dos pássaros citadinos sujos, das horas das catedrais, das pontes iluminadas, das chaminés incandescentes, das revistas gritantes, da moda severa, das calçadas transitadas, dos trens lotados, das plataformas inúmeras, dos defuntos mal enterrados, das baratas metarmofoseadas e das chuvas ácidas não era coisa fácil. Não era. Em tarde de 19 de agosto daquele ano maldito, ele olhou no fundo dos olhos da garota mais bonita do bairro. Daí a confusão começou. Não foi culpa da menina tão linda e de sorriso largo. Ele era cismado, de sobrancelhas feias e queixo torto. Quase não se olhava no espelho e as agonias eram tantas que pass...

Hienas

Aquela seria a última vez. Pensava sobre os últimos anos vividos enquanto abotoava a camisa. Era preciso muita energia para cumprir o trato que havia de ser selado para sempre. Olhos perdidos no primeiro poste que se acendeu no início da noite no horizonte distante. As malas já estavam prontas. Os pensamentos não. Quanta manteiga rançada derramada na última noite. Quantos pássaros já haviam morrido lá fora até os anos se passarem todos. Até chegar a hora de abotoar o último botão e dizer basta. O coração esperneava clamando calma. O cérebro esquiava feliz sobre a manteiga derretida. Saltava, voava, arquitetava piruetas, fazia careta na frente do espelho. O tempo era um devorador de folhas caídas das árvores. Ganhava sempre das traças penduradas no teto. Túnel longo sem sinal. Ao fechar a porta e trancá-la com chave pensou em jogá-la fora, em meio a uma pilha imensa de folhas de outono perdidas. Coração perdido e desapontado. Ele perdeu a competição sobre a arena manteigosa. O cérebro...

Lábios petrificados

Horas marcadas para anoitecer O brilho nos lábios manchados Foi coberto por um mal desconhecido Apodreceu por horas Até terminar num escuro azulado Daí foram dias, mais dias, e mais dias No amanhecer do sol fumegante Já não havia mais rastros Ratos se enfiaram por todos os lados E contaram histórias De fazer rir e chorar Humanos Perdem-se sempre nos rastros alheios Prometem em meio a sorrisos Fogem em meio às lágrimas No anoitecer vieram baratas Todas e várias Pechinchar os restos Lábios manchados petrificados Restos sob o sol caído Piedade sobre os dias posteriores Músculos e ideias são fumaça Ratos em festa quando entardecer Humanos Passar-se-ão os dias Será verdade quando os ratos engolirem as baratas Surgirá no ar o silêncio indiscutível Nada de sorrisos ou lágrimas Só folhas batendo no azulejo Batalhas inúmeras e limpas Lábios petrificados não mentem Sem brilho Sem restos Sem mordaça.

Que se apiedem

Apertava a chave na mão. Com força para que ela não voasse, ultrapassasse a janela e caísse no pântano desencorajado. Quase derretia no calor da sua mão. Quase ficava torta, inutilizada de fechadura. Esquentava e pedia desistência. Na memória ainda guardava as ruas infinitas que o levavam a doce amizade de Azaleia, de cabelos pretos enormes. Conversavam sobre tantas coisas uma tarde inteira de dezembro e mais dezembros. Desenhava o sorriso largo da flor em seu caderno velho assim que chegava em casa. Para não esquecer. Ficava horas imaginado outras conversas para o fim do dia, pra lá daquele fim de rua estreita que terminava num riacho barulhento. Memórias. No riacho gostava de lembrar das palavras que ela dizia, tão baixinhas igual poema que solta lágrima escondida. Ela o espremia, de longe, como se fosse limão, e o azedume saía fácil e só ficava o cheiro de coisa limpa no ar. O pensamento voava e escorria com a água e com o barulho que não parava. Com o tempo percebeu que percorria ...

Palavras na minha boca

Coloque Palavras na minha boca Doces e insanas Derretidas Na cor violeta das amoras Envenene-me com Palavras Da sua boca Tangerinas marcadas Para acontecer Deslizando pela rua Esperando a sua Nua Palavra Na minha boca Com ar de grão de framboesa Entorne o que ainda resta Macere o que ainda presta Ainda espero você colocar Palavras e Ameixas pretas Na minha boca.