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Os rios trotam

Era de se esperar que o dia nublado trouxesse a lembrança daquele rio barrento que vira muitas curvas até chegar à pequena casa de janelas rosadas. Duas janelas pequeninas, mas bem cuidadas, com cortininhas azuis com pequenas flores. Uma casinha a sós no fim do rio que se desmilinguia até ser fio fraco de água transparente. A saia verde surrada e os óculos grossos sempre observavam o que poderia haver dentro de uma morada tão minúscula. Era certo que vivia gente. O fogão de lenha soltava um cheiro que viajava depois das águas, depois do pasto. Uma pessoa morava ali, com certeza. A senhora de lenço xadrez que puxava da perna. Parecia ser boa pessoa. Parecia, somente. E a confiança não se estendia por tropeçar em dias sórdidos de modernidade. Os rios trotam com patas d'água. Vento forte que revirava a saia verde, debaixo para cima, na sinfonia do ar morno. Depois das janelas mínimas e das cortinas coloridas, imaginava poucos móveis e pouca comida sobre a mesa. No varal, somente peça...

A quien le gusta

Caminho com meus olhos pesados De bicicleta sobre um rio caudaloso Cometa de água barrenta Com fel na superfície Língua azinhavrada Arranhada na mesma canção do vinil Que repete como as maracanãs Tô fraco, tô fraco, tô fraco Cruzando os céus que refletem o curso pardo do rio triste Presa a um espelho eterno Que flutua entre as bicicletas Correm, correm, correm à margem, sobre e dentro Coração colado Todo sangrento Com fel na superfície Repete feito os lobos-guarás que ainda confiam em humanos Parte robô que sobrevive Parte roubada que sobrevive Cruzando Angolas, Moçambiques e afins Tô fraco, tô fraco, tô fraco Sobrevivente do grito da gralha azul que tinha razão Há meia hora atrás.

Ancoragem

Eu despetalo Os traços que trago No último cigarro Tantas vozes no quarto Pressionadas contra a parede Últimos ideais no nó Do marinheiro com dó e nó No peito Na despedida do cais A sós Com as pétalas tragadas Enfileiradas no gargalo Trago um fiasco Ao longo do dia Ouço recados Das vozes que temem o mar.

O salto do guepardo

Quitéria se despertou com o sol batendo nos lábios rachados e secos. O coração aos saltos a pôs de pé. O casal pedinte acordara antes. Estava fraca. Buscou as moedas no bolso e entrou na primeira padaria que viu. O dinheiro deu apenas para comprar um pão. Enquanto o mastigava a seco teve a certeza da cruel necessidade: voltar ao apartamento e não dormir mais uma noite sequer na rua. Era o único caminho. Não conhecia ninguém na metrópole. Era de fora. E fazer amizade duradoura e confiável da noite para o dia não seria possível. Depois do pão solitário, pediu copo de água de torneira, e tomou a calçada. O sol escaldante fazia apontar gotas e mais gotas na testa de Quitéria. Fez o caminho de volta do pouco que se lembrava da noite anterior, mas ao chegar ao cruzamento de quatro ruas mais adiante teve que engolir a timidez e perguntar pelo boteco de sinuca de pano sujo. Quem atendia era a dona Idalina. Depois de muitas perguntas para quem a deu atenção, já que muitos nem olharam para os s...

Mostra de Tuiteratura

Frases poéticas com limite de 140 caracteres, postadas em meu perfil no twitter @muniquealvim, e que fizeram parte da Mostra de Tuiteratura, realizada em São Paulo, em 2013. Seja bem-vindo/a à tuitosfera! -Entre o surto e o susto, apenas um tropeço do alfabeto. -Do alto do sapato rosa-choque joga as cinzas do cigarro no chão. Em seu coração de manteiga vencida já não cabe mais ninguém. -Todos diziam para ela amadurecer. Amadureceu tanto que seus lábios já acinzentados não contavam mais histórias. -Quando o tempo e as amoreiras não estão a favor, tudo apodrece em data esquecida. -Olho por olho. Sobre os dentes, deixemos aos vampiros. -Choverá da cor do lenço dela, e ele tomará o café dos castanhos de seu cabelo. -Mas o bom mesmo foi imaginar que ela seria água eterna do meu aquário. -Sempre imagino a sorte dobrando a esquina com um belo ramalhete de rosas na mão. -Eu não peço fardos leves. Eu peço ombros fortes. -Na minha frente tenho um relógi...

Inverno

Eu prometi cheirar o jasmim Espalhado, todo lilás Bem lá no meio do jardim Quando há névoa Orvalho congelado Ele sempre sorri para mim Com um ar misterioso Exalando perfume inquieto Roxo De longe eu prometi De novo, um dia Cheirar o jasmim Com minha xícara apertada entre os dedos Creio que ele está triste Folhas, muitas folhas Inibido entre todas As terras do jardim Calou-se o jasmim Agora é a sua estação Que jasmim na contramão! Apareça, era tão certo Ainda espero por você Ainda é tão escuro Ainda é inverno.

Observações de Becken sobre as lágrimas amarelas

As lágrimas dela eram amarelas. Isso mesmo. Um amarelo transparente, desmaiado, nada compacto. Não era paracetamol. Eram lágrimas levemente amareladas. Não eram comuns, da cor d'água, escorrendo pelo rosto e engolindo a poeira da pele. Eu sei que ela havia lavado o rosto há pouco tempo. Porque já havia chorado muito antes e trazia os globos oculares plenos de veias finas vermelhas. Chorava sempre escondida. Eu achava que era vergonha de menina que não deseja ser vista em mais um de seus inúmeros momentos de fraqueza. Na verdade, ela tinha era medo. Muito medo toda vez que entrava no pranto compulsivo com caretas de teatro grego. Até babava de tanto drama. Ela demonstrava receio de alguém descobrir que sua lágrima era amarela. E eu sempre imagino se tem gosto de abacaxi, ou de paracetamol. Mas não é amarelo-vivo, que nem o sol, o açafrão ou o ouro. Ela não gotejava ouro. Era tola demais para isso. Mas que é um mistério, isso não podemos negar. Não foi reflexo ou jogo de luz. Não foi...