Pular para o conteúdo principal

Postagens

'Trecho II'

(...) Com as mãos congeladas, Soraia esfrega os olhos negros e arregalados. Precisa verificar se as janelas do apartamento estão abertas ou não. Indícios de presença humana. O sol forte de quase meio-dia a atrapalha. Abre e fecha os olhos com força para varrer os excessos de dúvida. As persianas a confundem. Depois de quase cinco minutos, Soraia tinha a certeza das janelas fechadas. Sem notar, atravessava a rua em direção à entrada do prédio, mas seu cérebro dava o aviso do engano. Ele podia estar em casa com todas as janelas fechadas. O que era raro. A necessidade do dinheiro a fez apertar o passo. Subiu cinco lances de escada. A cada degrau, um gosto estranho lhe subia pela garganta. Um gosto de água suja, um pouco amarga. O estômago deu reviravoltas ao lembrar dos olhos negros do guepardo. Buscou as chaves em um dos bolsos da saia longa surrada. A que abria a porta do apartamento já estava separada entre os dedos de unhas curtas, enterradas na própria carne. Pálida, Soraia senti...

'Trecho I'

(...) Ela se despediu dele com um sorriso magro de estátua. Ele a ajudou a arrastar a amiga até o táxi. Prometeram um ao outro um novo encontro, naquele mesmo lugar. Elas se foram e ele ficou pensativo. O vestido azul medonho o atordoou. Mas o corpo dela, reto e limpo, emoldurado por cabelos finos castanhos, o aprisionou. Voltara ao apartamento pequeno e alugado cheio de observações e medidas. Ficaria assim até o próximo encontro, matutando, como era de costume. Matutava sobre tudo o que via ou ouvia. Gastava sinapses cerebrais até chegar a lugar algum. Não mudava de hábito há quarenta anos. As sinapses estavam desbotadas como lençóis velhos no varal.O segundo encontro aconteceu em menos de uma semana. A amiga bebedora de copos infernais não era mais sua companhia de festas. Naquele dia recusara-se a pagar o táxi. Nunca mais se falaram. Agora ela não usava vestido medonho. Estava de calça jeans e blusa verde com um broche de pássaro dourado. Os cabelos lindos e perfumados. Estava simp...

Anésia

Anésia tinha culpas no coração Queria paz milagrosa Era difícil na solidão Sozinho ninguém puxa o carro Sozinha desencatava Com sentimento murcho Anésia se sentia Cada dia pior Anésia comprou Leite de magnésia Definhava agora com hora certa Olhava a lua com olhos fundos Espírito embaraçado Sem ninguém ao lado Bordava panos imensos Ao vento Anésia acordou um dia muito estranha Seca na boca E na boca do estômago Estranha somente Amnésia repentina Amnésia Anésia agora Dormiria em paz.

Goiabeira

A goiabeira se esticou Inteira Perdeu as estribeiras Chorou Chuva das goiabas Cada uma no chão Galhos pontudos Dedos certeiros Em direção ao céu Goiabeira quer mel Felicidade de flor pequena Alva e iluminada Alvo branco noturno A goiabeira se esmerou Dia após dia Mas perdia cor Pedia luz E ela se foi Goiabeira apaixonada Chorou Agora é lua nova, disseram Goiabeira impaciente Encolheu-se.

Pintassilgo

Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém ...

A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em si...

Ela, a mais linda entre as estrelas

Ele esticou o braço o máximo que podia. Para entregar a rosa daquele dia. A eleita era perfeita. Toda vestida de prateado. Trazia o ventre enorme, bem redondo. Não estava assim nos últimos dias. Mostrava uma parte murcha, um lado desconsolado. Depois de dois ou três amanheceres, ela surgiu à noite toda divina. Cheia de si. Cheia de sabedoria. Plena de certeza que era a mais bonita. Mesmo entre tantas estrelas. A rosa cheirava o perfume do mais lindo jardim da terra. Branquinha. Suavezinha. Ele estava na ponta dos pés. Mãos ao alto. Rosa ao alto. Ela esboçava um olhinho triste. Impossível ter a rosa. Impossível o encontro das pequeninas mãos. Foram dormir com lágrimas nos cantos dos olhos. Mas sonharam um com outro. Juntos, bailando entre as estrelas. Rodopiando entre os cometas. Ela, cheia de si. Ele, cheio de rosas. Uma mais perfeita que a outra. O sonho durou até o amanhecer. *texto dedicado a Iolanda e Jonas.