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Morfologia botânica

Ela contou no chão 307 folhas caídas da laranjeira. Depois de contar a última, já não tinha certeza do número total e uma pontada lhe afetou o coração. Lembrou-se do último bem-me-quer e mal-me-quer, de bênçãos e maldições vividas desde o dia em que tinha nascido. Folhas de verde fulgurante, tão verdes para terem caído em pleno verão. As folhas inúteis caíram, mas a laranjeira continuou frondosa, milagre da multiplicação do reino vegetal. Linda laranjeira que não é vaidosa e mesmo perdendo folhas continua mirando o céu límpido de verão, aborrecido de quando em vez por horas de tempestade.
Tempestade no coração de quem conta folhas mortas. Próxima tempestade que varrerá folhas para qualquer esconderijo da terra, que apodrecerão na terra. Destino marcado de folhas paridas e mortas, resignadas. Não varrerá as folhas na tarde de hoje. Não adianta varrer hoje o que amanhã estará do mesmo modo. Sobre as 307 contadas neste dia acrescentará as mais de 120 do dia de amanhã. Deixará todas se amontoarem, fazendo cama elástica para as laranjas não colhidas, as já bicadas de passarinho ou simplesmente podres.
Quer ver a decadência do que resta da laranjeira do quintal. Em meio ao cenário desolador não sabe mais se é folha caída, laranja não colhida ou flor que não nasceu. Nem os pássaros a querem mais.

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