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Útero

- Se você bater a porta de novo, sua cadela desgraçada, não me chame mais de tia. Criei você como se fosse saída do meu útero, sempre seco sem esperança. Achei que dando vida a você, te criando depois da morte da sua mãe, a vida resplandeceria para nós três, sua mãe, você e eu. Mas tudo não se resumiu assim, como em histórias perfeitas e redondas de contos de fadas. Sua ingratidão já desfilou muito pelos cômodos desta casa. Quer saber? Não quero mais ver a sua cara de safada dissimulada. Não foi por falta de aviso. Não foi por falta de conversa. Eu sempre educada e moderada. Você sempre perversa, louca, exagerada. Você pode arrumar suas coisas. Faça uma trouxa com o lençol porque minha mala você não leva. E não esquece de colocar no embrulho de pano aquele cachorro que você comprou, para eu criar, claro, que gane a noite toda feito uma peste desenfreada. Quero ver você se virar sozinha com seu salário de garçonete, porque a esta altura do campeonato nem seu namorado deve te suportar mais. Vendendo o que você vende ninguém quer te ver por perto, sua louca, ingrata! Voltarei daqui a meia hora e não quero mais te ver aqui. Arruma tudo e toma rumo na sua vida, já que você se julga grandinha e esperta demais. Some!

Bateu a porta da sala e foi rumo à casa de sua amiga Sebastiana. A sobrinha rebelde fez as malas e foi embora. Nunca mais cruzou o ollhar com a tia, que também nunca mais voltou para a casa. Que descanse em paz, a pobrezinha.

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