Era noite na meia luz do abajur. Alice não pensava nem no ontem, nem no amanhã. Era o agora que a capturava em arapuca certeira. Com o indicador, empurrava para frente e para trás uma peça escura do tabuleiro de damas. O adversário nunca completava a jogada. O refrigerante cola sobre a mesa de centro estava morno e as batatas fritas geladas. Os ponteiros passeavam no tic-tac barulhento e Alice nem notava a infindável fileira de carros que passava dia e noite em sua rua. Buzinaço constante. Ansiedade citadina.
Movendo as peças do tabuleiro, sentia-se fria, só, carcomida pelas horas, pelo medo. Sua vida era previsível e confortável demais. Livros e discos são boas companhias, mas não retrucam, não brindam, não espirram, não dizem boa noite. A lâmpada do abajur piscou, e Alice no sobressalto acendeu o interruptor e desligou a luminária. Naquela noite se sentia estranha. Tinha a sensação volta e meia de um coração apertado, mas não era angústia. Era um pressentimento de algo, que nunca acontecia. Talvez fosse o resultado do planejar constante da vida de Alice, que nunca dava resultados. Vida previsível e confortável demais.
Vestiu uma blusa de lã, calçou botas, colocou um cachecol e saiu para ver o movimento da rua. Buzinaço constante. Ansiedade de Alice. Sempre quando saía de casa, tinha a ideia de que alguma coisa importante pudesse acontecer. Um encontro repentino que trouxesse felicidade ou uma notícia boa vinda de algum amigo encontrado por coincidência. Alice nunca teve um sorriso no rosto marcado por uma deliciosa coincidência. Andou metros e metros da rua, debaixo de um sereno meio espesso. A calçada estava molhada e lembrava cenas de Londres em filmes antigos. Alice viu pessoas animadas conversando em bares, namorados se despedindo na calçada, vizinhos trocando desejos de boa noite e boa semana de trabalho, pessoas se arriscando a passear com seus cachorros, apesar do frio. Alice deu a volta em quatro quarteirões e voltou para casa.
Na sala, tirou o cachecol e o abrigo e olhou atenta o jogo de damas com algumas peças mexidas. Há jogos que não podemos jogar sozinhos. Se escolhemos as peças escuras, não há o outro para reclamar que queria as mesmas peças escuras. E as claras sempre ficam nas mãos de ninguém. Não há como traçar planos e estratégias. Não há sensação de vitória. E que bom seria a sensação da derrota frente a alguém de carne, osso e ideias, mesmo que fossem contraditórias. Se esse jogo é de damas, o jogo de cavalheiros deve ser o xadrez. Alice empurrava com o indicador a peça escura para frente e para trás. Agora tinha coragem. O jogo parecia fácil. Em jogos de damas não existe o xeque-mate.
Movendo as peças do tabuleiro, sentia-se fria, só, carcomida pelas horas, pelo medo. Sua vida era previsível e confortável demais. Livros e discos são boas companhias, mas não retrucam, não brindam, não espirram, não dizem boa noite. A lâmpada do abajur piscou, e Alice no sobressalto acendeu o interruptor e desligou a luminária. Naquela noite se sentia estranha. Tinha a sensação volta e meia de um coração apertado, mas não era angústia. Era um pressentimento de algo, que nunca acontecia. Talvez fosse o resultado do planejar constante da vida de Alice, que nunca dava resultados. Vida previsível e confortável demais.
Vestiu uma blusa de lã, calçou botas, colocou um cachecol e saiu para ver o movimento da rua. Buzinaço constante. Ansiedade de Alice. Sempre quando saía de casa, tinha a ideia de que alguma coisa importante pudesse acontecer. Um encontro repentino que trouxesse felicidade ou uma notícia boa vinda de algum amigo encontrado por coincidência. Alice nunca teve um sorriso no rosto marcado por uma deliciosa coincidência. Andou metros e metros da rua, debaixo de um sereno meio espesso. A calçada estava molhada e lembrava cenas de Londres em filmes antigos. Alice viu pessoas animadas conversando em bares, namorados se despedindo na calçada, vizinhos trocando desejos de boa noite e boa semana de trabalho, pessoas se arriscando a passear com seus cachorros, apesar do frio. Alice deu a volta em quatro quarteirões e voltou para casa.
Na sala, tirou o cachecol e o abrigo e olhou atenta o jogo de damas com algumas peças mexidas. Há jogos que não podemos jogar sozinhos. Se escolhemos as peças escuras, não há o outro para reclamar que queria as mesmas peças escuras. E as claras sempre ficam nas mãos de ninguém. Não há como traçar planos e estratégias. Não há sensação de vitória. E que bom seria a sensação da derrota frente a alguém de carne, osso e ideias, mesmo que fossem contraditórias. Se esse jogo é de damas, o jogo de cavalheiros deve ser o xadrez. Alice empurrava com o indicador a peça escura para frente e para trás. Agora tinha coragem. O jogo parecia fácil. Em jogos de damas não existe o xeque-mate.

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