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No divã de papel com Anabel

23 de setembro de 1985

Tenho um arsenal de máscaras e armas de veneno letal. Já caminhei para inúmeros lugares, viajei sem mochila nas costas, sem destino nas mãos, sem ideias na cabeça. Quase sempre não me agrada a maioria das pessoas que encontro pelo caminho e troco de planos como quem troca de roupa. Foco meu objetivos sempre em três ou quatro projetos ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que tenho sono, tenho vontade de gritar e quebrar a casa inteira. Amo e fico enjoada de quem mais amo. Faço e repito a mesma coisa até ter certeza que a fonte está esgotada. Persigo pessoas, planejo assassinatos, reinvento minha alma várias vezes ao dia. Sempre que passo na frente de um espelho olho até saírem lágrimas, até comprovar que meu sofrer é duradouro. O reflexo no espelho a cada hora é de um jeito. No espelho sou só olheiras, só cansaço, só desesperança. Odiei todos ontem que cruzaram meu caminho e desejei a morte de mim mesma. Cuspi no chão feito gente antiga e cuspi para cima feito gente idiota. Exibi minha falta do que mostrar em frente a todas as câmeras fotográficas. Espero que revelem minhas magras costelas e meus dentes afiados. Minha vontade de arranhar sua face é do tamanho da minha rígida sinceridade. Tenho rígidos princípios e guardei muito bem guardado todos os tapas que já marcaram o meu rosto, que nem sabia ainda o que era sarcasmo e zombar da derrota alheia. Ao lado de meus antídotos secretos espero as horas se acelerarem. Quero que o cuco bata as doze horas de horror para me deitar em minha cama de espinhos. Com mel e limão tudo descerá melhor.

Comentários

  1. tais verdades nos doem tanto, também tenho os meus pricípios e as cruzes carregadas nas costas, nos braços, nas costas, nos braços...

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  2. Valeu, O impenetrável! Mesmo colocando as dores como as de outro personagem, às vezes elas são da gente mesmo...

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