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Telefone esquizofrênico

Estava acomodada debaixo dos cobertores e era quase uma hora da madrugada. Depois de fazer as orações de praxe, o telefone tocou. Coração na goela de tanto susto. No painel de chamadas um número estranho, era só 000000000.... Muito estranho mesmo, mas decidiu atender. Do outro lado, uma voz abafada, aguda, incompreensível. Falava palavras repetidas. Às vezes a voz ficava longe, às vezes próxima, às vezes cortadas por outras vozes. Parecia alguém falando do fundo de um aquário, com água. Sem querer compreender, desligou o telefone e voltou para a cama. Sem nem ao menos tirar o último pé do chão, o telefone reclamou mais uma vez. Voltou para verificar a chamada. Os mesmos zeros. Não era possível! Tinha vontade de desligar o telefone na tomada, mas ao mesmo tempo saber o que se passava. Ela nunca havia escutado do outro lado da linha uma voz tão esquisita, abafada, com alardes de socorro, de linha cruzada, de engano vindo de outro planeta.
Não conseguiu entender nada desta vez. Tentou chamar quem estava do outro lado, iniciar uma conversação, mas foi inútil. A pessoa continuava com timbre de afogado. Terrível. Encaixou o telefone na base e voltou para a cama intrigada. Ninguém ligava para ela assim tão tarde. Com a cabeça no travesseiro, o telefone rasgou o silêncio mais uma vez. Já sentia o corpo gelado e perdeu a cor ao ver que o telefone estava no chão, e não onde ela o tinha colocado anteriormente. No painel de chamadas 000000000000...
Sem cor nos lábios, desligou, nem sabe como, o telefone da tomada, desceu as escada e foi para o primeiro andar da casa. Mole como um fantasma, o coração trotando a ponto de infarte fulminante. Sentou no sofá sem nenhuma noção de tempo e espaço.
Mais uma vez o silêncio foi cortado por uma chamada. Não era o telefone, que já imaginava voando, descendo as escadas. Era a campainha. De madrugada era impossível alguém a visitar. Levantou atônita e mirou pelo olho mágico. Ao abrir a porta, um vento gélido lhe percorreu a espinha.

Comentários

  1. Querida,
    adorei! Nem tinha entrado no Blog por causa dos textos, achei você por acaso antes desse último ser postado nas "escrivinhações" da Raíssa.
    Sei que te devo (dia 01. de abril vão fazer dez anos) um postal de Munique. Me manda o seu endereço (marcia.cyranka@web.de) que quero fazer isso ainda, espero que não seja tão tarde, mas antes tarde do que nunca.
    Beijinhos berlinenses

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  2. Meu Deus, que arrepio ao ler isso! Claro que não é tarde porque, neste caso, o tempo não passou... Putz, nem sei o que te dizer! Mandarei o e-mail!
    Beijos sandumonenses!

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