Pular para o conteúdo principal

Tutti frutti

Chegou em casa com a maguiagem borrada, arranhões no pescoço e o vestido rasgado em fúria. Que noite!!! Que dia!!! Que tarde!!! E que noite de novo!!! Não esqueceria nunca aquela situação de constrangimento e surpresa. Outra pessoa em sua vida lhe deixando memórias marcantes, em chama viva, com gosto de quero muito, muitíssimo. Que delícia amar em frente a um espelho de carne e osso. Sem culpa e cheia de volúpia. Vontade e mais vontade de experimentar, ousar, repetir e torcer para o desejo ser um engano, uma tentativa frustrada, um poço com fundo, raso.
Sem troca de telefones, sem promessas, sem amarras, sem amanhã. Apenas o olhar trocado e guardado no fundo da alma, que já se cansou do mesmo, do óbvio, do cheiro de nada e gosto de isopor. Um caso inédito em seus 27 anos, e que será repetido em sua mente por mais 27. Nada de esperanças, e nem de esperar o toque do celular, a chegada do e-mail, a carta impossível dos dias atuais. Foi só uma vez, ou melhor, uma ocasião, plena de tudo que há de mais sagrado do mundo do amor. Nada será como antes, nenhum sonho sérá melhor que este, nenhum encontro será tão louco, forte, prazeroso e imortal.
Tirou os sapatos e sentou no sofá de estampa zebrada. Meu Deus!!! Outra pessoa em sua vida lhe deixando memórias marcantes, em chama viva, com gosto de gloss de tutti frutti.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...