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A dor da partida

Louças antigas, louças recentes, talheres de prata, talheres de inox, copos de cristal, copos de estanho. Pratos que são quadros, quadros que são porta-retratos, porta-retratos grandes, pequenos, de louça, de prata. Terrinas, licoreiras, jarrões, chaleiras, vasos enormes, plantas falsas, mas bem simpáticas.
Jogos de xadrez, jogos de xícaras, soldadinhos mentirosos, estátuas de rostos alienados. Móveis franceses, móveis daqui mesmo. Artigos do tempo da guerra, artigos do tempo de paz e amor. Relógios com cuco ou sem cuco marcam a hora em chiados compassados. Quantas peças! Quinquilharias ou raridades.
Tudo depende dos olhos de quem observa. Tanta coisa que já foi de tanta gente querida. Objetos de família, que atravessaram gerações e mais gerações, que não se desfazem com o tempo - muito pelo contrário, acumulam-se. Como se jogá-los fora ou repassá-los a uma ninharia fosse afronta aos falecidos donos. Quanta coisa naquela casa tão estimada da Rua da Rosa, 46. Cada artigo é parte do coração de quem cuidou de tudo com tanto esmero e paixão. Tudo sempre limpo, bem cuidado, organizado e guardado como se fosse a mais importante tarefa já delegada na face da Terra. Tudo à espera de um novo lar. Era hora de enxugar as lágrimas, trancar a porta e repassar ainda hoje as chaves do antiquário da Rua da Rosa, 46.

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