Pular para o conteúdo principal

As cartas não mentem jamais

Norah Arethuza era uma cartomante infalível, conhecida por toda a cidade de 158 mil habitantes. Veio para o Brasil ainda pequena, deixando transparecer em escapadelas seu sotaque de leste europeu. Era a cartomante mais requisitada, e em seu último horário marcado do dia recebeu Thaísa, uma morena de longa cabeleira negra. A história, como era de se esperar de uma bela mulher, incluía as temerosas dúvidas amorosas. Thaísa havia conhecido um homem de olhos azuis inesquecíveis, que a encantou desde o primeiro momento. Não resisitu aos galanteios e promessas e "se entregou" já no primeiro encontro. Ele não falou de casamento, mas ela sonhava a cor do vestido de noiva. Perguntou à cartomante o que deveria fazer dali em diante. O tal galã tinha acabado de chegar da capital onde trabalhara muito tempo como bancário, e repassou à adivinha todos os detalhes possíveis.
Norah ouviu tudo atentamente com cara de quem deve transmitir tranquilidade ao cliente. Depois de embaralhar as cartas, reparti-las e repetir palavras em sotaque de oriente europeu, começou o jogo do destino. Revirava as lâminas e arqueava as sombracelhas. Era mestre nas máscaras do mistério. Revelou que aquele era o grande amor, escrito nas estrelas, na vida de Thaísa. A carta dos "Enamorados" confirmava a paixão e a da "Imperatriz" a união estável entre eles. E foi desvirando mais e mais cartas, fazendo caretas, revelações e suspenses. Thaísa deveria fazer de tudo para não perder aquele homem e seduzi-lo até as últimas consequências. A mulher ouviu tudo o que mais queria em toda a sua vida.
Com a última cliente do dia satisfeita e a rumo de casa, Norah saiu um pouco para colocar ordem em seus pensamentos. Lembrou-se de anos atrás quando havia se apaixonado por um homem de olhos azuis fascinantes. Logo se casaram e as promessas de amor se foram. Ele bateu várias vezes em Norah e a abandonou grávida. Prestes a se mudar de cidade ele jurou ainda que nunca a deixaria em paz. Tempos depois, Norah perdeu a criança ainda em seu ventre.
A morena de longa cabeleira negra agora que se cuidasse, porque Norah, a cartomante infalível, também jurou nunca mais ver o homem de olhos azuis, e no jogo de cartas daquela tarde já tinha feito sua parte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...