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A Gaby, o brigadeiro e a arruda

Amanhã tenho que comprar uma muda de arruda sem falta, pensou. E enfiou na boca uma colherada farta de brigadeiro. Lambeu bem o talher até ficar em metal ofuscante e limpou o fundo da panela até arrancar o teflon. Pura delícia de calorias óbvias. Sem pensar duas vezes foi ao fogão fazer outra receita de chocolate puxento. Só pensou na delícia e esqueceu a parte das calorias óbvias. Chocolate e demais ingredientes ao fogo, escuta tocar um mambo agitado no celular. Quando o toque era aquele, a coisa era de arrepiar. Na certa, Gaby e seus problemas.

Laura Gabriela, a Gaby, era uma mulher completamente desinformada que odiava computador. Não sabia fazer quase nada direito, nem mesmo café solúvel. Falando nisso, na cozinha, Gaby era um desastre só. Dizia sempre que sabia fazer bolinho de chuva como ninguém. Como ninguém mesmo. O bolinho ficava cru bem no miolo e nem a cobertura açucarada ficava no lugar. Sobre a vida amorosa? Gaby era uma eterna solteira. Todos os homens tinham defeitos como se ela própria fosse digna de príncipe encantado. O namoro mais longo durou oito meses. Dizia-se eternamente apaixonada pelo rapaz que usava gel no cabelo até na praia. Um dia Gaby o surpreendeu depois de escovar os dentes colocando a ponte móvel no lugar. A partir daquele dia ficou com nojo de beijar o coitado, que não entendeu nada e teve que se contentar com as fotos da praia mesmo. Nem isso Gaby quis mais.
Gaby era uma mulher que falava demais. Suas conversas viravam monólogos, e a plateia, quase sempre de uma só pessoa, assistia ao espetáculo em ânsias angustiantes. Um olho em Gaby e o outro disfarçadamente em qualquer relógio mais próximo. Contava o caso sempre com todos os detalhes, os mais inúteis possíveis, e no meio do caso se lembrava de outro, esquecia-se do primeiro, e de repente já estava engatando no terceiro. E a plateia com  a boca colada de saliva.

Naquele dia Gaby queria tanto desabafar. Foi cortar o cabelo e não ficou nada como queria e quando saiu do salão quase torceu o pé. Aí quem veio ajudar? O ex-namorado de uma amiga dela. Amiga que tinha comprado um vestido rosa um dias desses e que ficou um terror! Mas o cara era o maior safado e veio ajudá-la porque estava de decote e quis aproveitar para ver, e não porque era bonzinho. Ah, mas ela falaria com a amiga que ficaria fula da vida com a história toda. Ainda mais porque ela percebeu muito bem que no braço esquerdo dele a tatuagem com o nome da amiga havia sido coberta com o nome de alguma outra mulher, mas não deu para ver direito. só sabia que começava com a letra E.
O tititi de Gaby disparou feio e o cheiro de queimado flutuou para a sala. Era preciso falar com Gaby que tinha gente tocando a campainha, mas com jeito, muito jeito, porque Gaby era sensível, muito melindrosa.
Foi até a cozinha, tomada pela fumaça e empesteada de cheiro de receita que deu errado. No fundo da panela o quase brigadeiro virou lava seca de vulcão. Respirou fundo e pensou: amanhã tenho que comprar uma muda de arruda sem falta.

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