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Um chá para o barão de Terranova

Gilson guarda todas os pares de meias e cuecas que ganhou na noite de Natal. Entope uma gaveta e começa a pensar em Rui. O que será que os mortos fazem durante o dia? Será que eles comem, dormem, choram e moram em casas como as nossas? Será que os mortos choram a nossa falta, assim como caimos em pranto pela ausência deles? Cansado de perguntas que nunca terão respostas, Gilson apaga a luz e tenta dormir. É só ele e a escuridão do quarto em silêncio. Com ninguém conseguiria dividir a ausência de Rui, que era tão companheiro, tão feliz, tão distraído...
A lua cheia já vem nascendo e passa pela fresta da cortina do quarto de Gilson. A escuridão cede passagem ao feixe de luz prateada. Gilson ainda não dorme e pensa em como Rui deve estar. Imagina se suas preces alcançam o amigo em outra dimensão. Imagina se ele o pode escutar aqui da Terra em conversas telepáticas. Quem pode responder as indagações de Gilson com precisão e fundamento? Há perguntas que nunca deveriam ter nascido para morrer no abismo dois passos depois.
Já faz um tempo que a lua subiu no céu. Morrerá em trajetória do lado oposto. Estrelas e muitas estrelas brilham ora mais ora menos ao lado da bolota cor de prata. É hora de dormir porque a madrugada está chegando. Então Gilson resolve fechar o baú enlodado de indagações feitas há dias com um brinde. Mas com que os mortos brindam, se é que eles brindam? Com vinho não pode ser porque contém álcool, com água seria muito sem graça, com café seria inapropriado, com cerveja muito vulgar. Gilson escolhe enfim um brinde com chá. Bebida de doente deve ser bebida de morto. Oferece um chá a todos os mortos, a Rui, ao fim da conversa e também ao barão de Terranova.

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