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Pueril

Vou afundar meus olhos em um pôr-do-sol estonteante e sair de lá só quando a montanha o engolir por inteiro. Já noite, arremessarei meu colar de pérolas arrebentado ao alto e torcer para que cada grão se torne estrela. Com o universo aumentado, sonharei laranjas de outono e travesseiros de algodão-doce, para por fim à tristeza de achar que vida é rotina, mesmice, lágrimas de mesmo gosto.
Vou afundar meus olhos no espelho sincero de qualquer quarto e sair de lá só quando as labaredas já tiverem comprometido o telhado. Tentarei salvar meia dúzia de lembranças e deixar o resto para fantasmas sobreviventes. Com as mãos cheias do que não consegui levar chegarei à realidade de que a vida é baú pleno de mistérios que cheiram a lavanda, mofo, avenca e nada.
Vou afundar meus olhos em um sol nascente e sair de lá só quando a montanha deixá-lo escapar por inteiro, como pássaro de gaiola e grito de garganta. A luz que sairá de mim não será soberana. Sinto muito pelo espelho quebrado, a mala mal feita e o cigarro no sofá. Em taça transparente me prenderei até o fim da tarde, e começarei tudo outra vez.

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