Pular para o conteúdo principal

Breve confissão de Iracema

Ok, hoje fingirei que sou sua. Direi vários "eu te amo" com cara de dor, porque amar é sentir dor. Em todo o corpo, atravessando o umbigo e fazendo cócegas na alma. Sairei com você para qualquer lugar, mesmo se for aquele de sempre, para tomar o que você pede sempre e ouvir o que você fala sempre. Essa rotina sedutora é o que me faz viva hoje ao estar ao seu lado.
Pedirei a você que vá com calma, que dirija com cautela e que tire a mão do meu joelho. Ora, é justamente o meu charme de femme très difficile que te prende na minha teia há anos. Com a cara cheia de gim tônica vai ser mais fácil passar pelo balé da sedução, virar para o lado e esperar a aurora do dia. Submeto-me à você porque sem você já não sei o que resta de mim. Porque com essa rotina passada a ferro de olhos fechados me tornei freira enclausurada. Sou casta no mundo e mundana em suas mãos. Se eu negasse o seu convite não dormiria essa noite. Aceitando o seu convite me sinto viva por esta noite. Não alcanço a tampa do vidro e se alcançasse não saberia abri-la de dentro para fora.
Hoje eu finjo que me vendo e você finge que me paga. E eu saio desta história mais uma vez sem nenhum tostão furado. Na próxima prometo não exagerar no gim e pintar as unhas dos pés do jeito que você gosta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Cacos de ampulheta

  O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua s...