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Olhadela

Não era difícil distingui-la em meio a multidão. Sempre enterrada em uma capa de chuva amarela. Sempre com medo de atropelamento e tromba d'água em fim de tarde. Engolida diariamente por prédios, fumaça, trânsito barulhento. Era diferente sim, mas quem pararia para olhá-la em meio a tantos compromissos na agenda? Era prioridade desviar de quem não usasse a mesma roupa da multidão. Era louco quem ousasse conversar com loucos ou ao menos olhar para eles. Ela não recebia esmolas. Ela recebia relances de medo e de hostilidade.
Fazia chuva, fazia sol, fazia neblina, ao som de buzinas, sirenes, apitos e xingamentos, respirando ar contaminado de toda gente que se acha mais e acima dela, na capa de chuva amarela. Caminhando anônima como tampinha de garrafa na enxurrada, sem memória, sem documento, sem destino, sem futuro. De cara suja, roupa imunda e capa contra a chuva de maldades. Isso tudo em uma moderna, cosmopolita e amarelada metrópole, em meio a pessoas, fumaças e olhadelas desconfiadas.
Que nesta tarde a tromba d'água caia sobre quem mereça, limpando bem a capa e a cara de quem é muito fácil distinguir em meio a uma nobre multidão.

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