Pular para o conteúdo principal

O valoroso charme da burguesia

Espero que chova muito esta noite, para ter bons motivos para não sair de casa e ir à festa da Avenida 16. Preciso de um motivo que não tenha a ver comigo, uma tempestade de horas, qualquer catástrofe natural, um ataque de homem-bomba, um surto de qualquer gripe animal. Não posso ter o remorso de não ter ido à festa simplesmente porque não quis. Urge uma causa maior, incontrolável, justificável, adequadíssima à minha decisão, indelével decisão, sólida como gelatina em meio a apagão elétrico.
Não quero hoje colocar meu vestido de quinta e meu salto italiano, trazido por uma melhor amiga, para desfilar em beira de piscina ao lado de chiquérrimos pobres mortais. Ouvir asneiras de quem acha que Degas só pintava bailarinas, Van Gogh só flores amarelas e Kandinsky só figuras geométricas. Mulheres que falam a moda das revistas dos salões de beleza e homens que falam de sei lá o que porque nunca fico perto deles. Sempre em um dado momento algum lança seu dardo venenoso de avaliações sobre quem pode ser a "melhor reprodutora" da noite.
A piscina realmente é linda. Azul hipnotizante pontilhado de balões de festa. As decorações são sempre as mesmas, mas o vinho rosé não tem igual em nenhuma festa chiquérrima da Avenida 16. Sempre servidos em taças maravilhosas de cristal da Boêmia. Todo um aparato finíssimo para receber gente não indigna, que fala com ares de diplomata e flecha pelas costas a menos de um metro de distância como deuses em ira. Medusas perigosíssimas, com forte cheiro de sangria que se espalha a metros.
Não ir a esta festa me poupa de desavenças, de escutar calamidades, de presenciar falas marcadas com quatro ferraduras. Nenhum deles conversa além de seu pequeno mundo ignóbel de futilidades. Futilidades do ter, e não a vontade do saber. Enfim, não me levarei a ferro e fogo a mais este encontro de sociedade nefasta. Eu nem deveria estar na lista de convidados. Mas parece que fazem de propósito porque sempre na data marcada cá fico eu com minhocas na cabeça e talvez no estômago pensado sobre o ir, deliciar o vinho e esquecer as falas de penico alheias, ou o não ir, estar em casa na companhia de meus doces conhecimentos e não saber daquela gente por mais mil anos.
Toda vez é assim e acabo trocando de roupa e chamando o taxi. A curiosidade é o par de brincos mais lindo que já vi nas orelhas da maldade. No fundo, sempre quero observar os vestidos, as pulseiras, as taças de cristal e o azul da piscina. Por isso quero que chova muito esta noite para ter bons motivos de ausência, minha e da maioria dos convivas. Quero que o mundo se acabe em represa estourada. E vou pedir isso até que cada estrela que vejo no céu se evapore por completo!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.