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Intrépido e decidido

Dez horas. Daqui a pouco era hora de sair. Marcou encontro com Analise. Experimentou três casacos diferentes. Preferiu o segundo, mas teve que trocar a camisa para combinar. Entre os dez vidros de perfume, escolheu titubeante o que ganhou por último de aniversário. Encharcou-se de desodorante. Hoje seria um grande dia.
A Analise era muito séria, mas deu bola para ele semana passada. Acertou um encontro na sorveteria da cidade, às onze horas, no sábado. A semana custou a passar... mas passou. Ele tinha que ficar impecável para causar a boa, velha e famosa imprensão. Dizem que é a primeira que fica. O resto cada um improvisa do seu jeito. Ela anotou o número de celular com caneta vermelha em um guardanapo e entregou para ele toda sorridente, depois de dias de relutância. Ah, o charme masculino faz milagres, às vezes. E o danado era bom nisso.
Antes de sair, era melhor dar uma conferida, aquela ligadinha básica. Foi na jaqueta jeans que havia guardado o papel rabiscado. Procurou em todos os bolsos... putz! Cadê o papel? Buscou em outras jaquetas, por via das dúvidas. A transpiração quase pingou. Reforçou o desodorante. Mas, e daí? Analise era séria, toda certinha. Não tinha nada que combinar de novo o já combinado. O encontro era na sorveteria da cidade, às onze horas. A sorveteria da cidade era uma só, com paredes de alvenaria, mesas e cadeiras, com placa anunciando "Sorveteria Doce Neve". O resto era barraquinha e quiosque.
Mas, e as onze horas? Era da manhã ou da noite? Analise queria se refrescar em um sábado de manhã, antes de almoçar, ou já bem de noitinha, na hora que as corujas piam e o crime rola solto? Se fosse de manhã, Analise já tinha comido bolo. O jeito era arriscar o sorvete mesmo, já noite. Mais uma vez desodorante, e saiu.
Na sorveteria, ele esperava ansioso, que nem um noivo. Às onze em ponto, apontou na porta Analise, toda elegante em vestido grená, cabelos soltos e argolas douradas nas orelhas. Uma deusa! Ele, todo transpirante, levou um último susto, sufocado pelo sorriso amarelo. Tirou da mão esquerda a aliança. Era intrépido, seguro e decidido, como ninguém.

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